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Celso Lima Estamparia


OFICINAS "ACERVO ÁFRICA"

Acontecem nesse mes de agosto meus minicursos no belissimo espaço ACERVO ÁFRICA, com 2 propostas: "ADIRES - ARTE INDIGO IORUBA" e "BOGOLAN - ESTAMPAS NARRATIVAS", com inscrições são online até o dia 03/08. Os horários vão abaixo, no convite.



Escrito por Celso Lima às 18h37
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CURSOS SESC POMPÉIA / 1o.SEMESTRE 2016

"DESIGN DE SUPERFÍCIE"

A criação de desenhos para estampas, estudos de rapport e paleta de cores para têxteis, wallpaper, azulejaria, revestimentos relevados e estruturas (cobogós) compõem o programa dessa oficina, com produção de pilotos sobre têxteis e wallpaper em serigrafia manual, maquetes para azulejos e revestimentos e plantas para estruturas. As quartas-feiras, das 10 as 13hs., de 30/03 a 29/06.

Estampa de Marian Mahler/1955.

 

"ESTAMPAS TINTUREIRAS DAS ÁFRICAS"

A oficina traz 4 grandes acervos de arte têxtil do continente africano: os adires iorubas, em suas versões alabere, oniko e eleko, e sua tinturaria indigo; os tinturados "kubas" do Congo, uma arte refinada da estamparia por reservas; os listrados tinturados "kikois" do Quênia e o batik da Nigéria. O estudo da história desses processos e das culturas que os produziram fazem parte do menu, e as peças serão produzidas em algodão e seda. As quintas-feiras, das 14:30 as 17:30hs, de 31/03 a 30/06.

Adire-alabere ioruba / Nigéria.

 

"BLOCK-PRINTED: DESIGN & IMPRESSÃO"

O processo clássico do block-printed e o estudo de 3 grandes momentos de sua produção: William Morris e seus padrões impressos por matrizes, a multiplicidade criativa da "Wiener Werkstätte" com seus designers produzindo padrões para block-printed e os revolucionários designers soviéticos do "Vkhutemas", imprimindo por matrizes de madeira a modernidade no inicio do século XX. A criação das estampas, estudo de rapport, seleção de paleta de cores e gravação das matrizes antecede a impressão sobre algodão. As sextas-feiras, das 10 as 13hs, de 01/04 a 15/07.

Matrizes gravadas para impressão em block-printed.

 

AS INSCRIÇÕES ACONTECEM NO DIA 06/03 (COMERCIÁRIOS) E 11/03 (PUBLICO EM GERAL), NA UNIDADE DO SESC POMPÉIA, A RUA CLÉLIA 93. MAIORES INFORMAÇÕES NO SITE DAS OFICINAS DE CRIATIVIDADE SESC POMPÉIA.



Escrito por Celso Lima às 18h17
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UMA CHITA BRASILEIRA?

Chitão floral.

Essa é a história de um híbrido cultural, como muitos que existem pelo mundo, frutos do intercâmbio de culturas, muitas vezes pacífico, outras nem tanto. Muito populares e hoje consideradas "cults", as estampas florais "large" em fundos de cores primárias, muito extravagantes, recebem no Brasil o nome de "chitas" ou "chitões", graças as suas origens. A versão oficial conta que nossa chita descende estilisticamente das francesas e portuguesas, com destaque para as chitas embarcadas em Alcobaça, Portugal. De fato, a partir da segunda metade do século XIX, as chitas, tecidos estampados com motivos florais de influência oriental, corruptelas européias das originais "chitras" da Índia, os "palampores", ou "pintados" como nomearam os portugueses, ou "chintz" nas versões inglesas, e "toile peinte" na França, passam a ser produzidas no Brasil também, principalmente em tecelagens de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, que priorizam as estampas florais com adornos neoclássicos que caracterizavam as chitas européias nesse momento, e os "tabaqueiros" xadrezes passam a ser paulistas e cariocas.

Palampore indiano / século XVIII.

Os padrões florais de rosas, lírios, hibiscos e papoulas com borders neoclássicos são os temas até o final oitocentista, quando as estampas passam a ser construidas em buquês, uma variação de estilo adotado pelos portugueses influenciados pelos provençais franceses, já que Paris e Viena ditam a moda nesse "fin-de-siécle". Mas e a nossa chita com suas flores enormes e exóticas, suas cores primárias, que se diferenciam tanto das delicadas estampas européias? Pois é, existe uma história que nunca é contada, porque não é pesquisada e conhecida, e que mudou o desenho da chita produzida no Brasil: a chegada aos nossos portos, a partir de 1914, dos estampados "royal dutch wax", ou "wax-print", produzidos em Java e na Holanda e comercializados por holandeses e ingleses na costa ocidental africana.

Chitas portuguesas / século XIX.

Eles foram introduzidos inicialmente na "Costa Dourada", atual Gana, pelos holandeses, que em 1846 haviam fundado a "Vlisco", empresa que produzia um batik semi-fabril em "Batávia", hoje Jakarta, capital da Indonésia, então colônia holandesa, e em Amsterdam e Rotterdam. A primeira tentativa de comercializa-los foi na própria colônia, nas ilhas de Java e Sumatra, mas a rejeição foi absoluta. Para os habitantes das ilhas, o batik era uma arte sagrada, e não poderia ser corrompido daquela forma, um processo que alterava toda a sua meticulosa execução artistica e violava seus signos religiosos e culturais. Daí a idéia de desova-los na sua ex-colônia "Costa Dourada", que os holandeses haviam vendido para a Inglaterra. Inicialmente estampados em azuis, amarelos e vermelhos, suas estampas florais e mitológicas javanesas exerceram forte atração sobre as populações locais, além de serem muito baratos.

"Wax-print" / "Vlisco"

A introdução do "wax-print" na África gerou um dos mais dramáticos estigmas das politicas de aculturação das colônias, que perdura até hoje como uma fratura das identidades africanas, quando se estabelece como um "simbolo" do continente, sendo o que sempre foi: uma criação e produto dos holandeses, uma fantasia do que deveria ser a estampa africana, com motivos europeus, asiáticos e alguns elementos pinçados do "folk" africano, mas que provocou a destruição e declinio dos importantes acervos de arte têxtil originais das culturas africanas, em suas ricas diversidades. Mas esse assunto é para outro post. Seu sucesso fez expandir o comércio da costa para o interior do continente, hoje onipresente em toda a África."

Chita estampada no Brasil pela "Cedro & Cachoeira" / Minas Gerais / Século XIX.

Durante a Primeira Guerra Mundial, com o enfraquecimento dos mercados europeus, os holandeses resolveram incrementar a venda do "wax-print", então uma importante fonte de lucros, e lançaram os olhos para outra região que concentrava imensa população negra, de origem africana: o Brasil, com destaque para as grandes cidades da costa nordestina. E por que apenas as populações negras? Eles acreditavam que o "wax-print", exótico e multicolorido, só poderia interessar a povos "inferiores" que não cultivassem padrões europeus de elegância e bom gosto, expressos nas cores sóbrias e nas clássicas estampas dos têxteis que vestiam e forravam a Europa. Os preconceitos classista e racista eram ingredientes que moviam os interesses pecuniários dos holandeses.

Chitão floral em recortes.

Então, durante a guerra, holandeses e ingleses passam a exportar seus "wax-prints" para o Brasil e tb para Portugal, país neutro que já comercializava o tecido via Angola. Aqui os florais extravagantes sobre algodão chegam principalmente na costa nordeste, aportando em Recife e Salvador, com populações negras maiores, e na concepção colonialista dos europeus, mais receptivos ao "exótico". Foi um sucesso, o que levou os comerciantes locais a temerem a concorrência, dado os preços ínfimos com que os "wax-print" eram vendidos. Nessa época, estampar era caro, ainda mais os motivos das chitas européias, que demandavam de 12 a 24 matrizes de impressão. O "wax-print" levava no máximo 4 impressões, graças ao uso da cera como reserva, daí seu baixo custo.

Chita com 22 matrizes de impressão / Brasil / século XX.

Foi o sucesso do tecido holandes que levou uma tecelagem, a "Pernambuco Algodoeira", a criar em 1916, pelas mãos de estudantes de arte recifenses, os florais em "recortes" aplicados a fundo plano. Eram as flores das chitas recortadas e aplicadas sobre fundos lisos em cores saturadas, com no máximo 5 matrizes sobre morim de algodão, resultando em um tecido extremamente barato, e muito, mas muito atraente. A recriação das chitas traziam grandes buquês de lirios, papoulas e rosas, entre outras flores das originais estampas européias, sem os borders neoclássicos ornamentais, em fundos de cores chapadas sobre algodão de má qualidade. Foi um êxito estrondoso, que destruiu a concorrência holandesa.

Chitão floral com papoulas.

Assim nascia nosso chitão florido, único em suas características. Vestia apenas as populações negras e pobres do nordeste brasileiro, já que seriam comercializados para a região sul e sudeste apenas no inicio dos anos 60. Quando se iniciou a produção de tecidos sintéticos e mistos no Brasil, no final dos anos 50, uma nova oferta de estampas e têxteis se apresentou para as camadas mais empobrecidas da população, e a chita em morim vagabundo começou a ser abandonada, então considerada um estigma da pobreza. Foi no final dos anos 70, já relegada a ensacar farinha e pão, que começou a despertar a atenção como peça "folk" nas elites brasileiras, sendo introduzida em ambientes requintados propostos pelas revistas de decoração. Hoje indica modernidade, autenticidade e brasilidade, mas nesse seu epílogo fica dificil ocultar o esnobismo de classe entre suas belas flores.

A chita decora o "chic".

Mas é brasileira? Estilisticamente é uma criação nossa, mas suas flores continuam a reverberar suas origens européias. Os chiteiros anônimos que desenharam os motivos, um acervo muito pequeno de estampas, sempre se inspiraram nas flores estrangeiras presentes nas chitas francesas e portuguesas. Nos ultimos anos venho realizando oficinas para criação de florais, novas "chitas", autenticamente brasileiras, com nossas quaresmeiras, xixás, urucum, as flores das goiabeiras e ipês, e fico surpreso com a ignorância dos alunos sobre nossa flora. É preciso reiniciar o processo educativo no Brasil, refundar nossas escolas e resgatar nossos jovens da mediocridade e desconhecimento em que estão mergulhados. Quem sabe um dia teremos um acervo de chitas brasileiras, autênticas em nossas flores, explodindo em cores.

Estampa "Maracujás" / Lucia Bissoto / 2014.



Escrito por Celso Lima às 13h02
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CURSOS JANEIRO/FEVEREIRO 2016

SESC BELENZINHO:

Serão duas oficinas tintureiras na programação de inicio de ano do SESC Belenzinho:

"TINTURARIA - SHIBORI DO JAPÃO": serão 4 encontros abordando 3 processos do acervo shibori japonês: o itajime (estampa com rapport), ori-nui (estampa com rapport) e arashi (estampa e plissagem), com o classico tingimento ozome indigo japonês sobre algodão e seda. A história desses processos a partir de suas origens no século IV e estudos sobre fibras e pigmentos estão no cardápio. As terças-feiras de 12/01 a 02/02/2016, das 14:30 as 17:30hs.

"TINTURARIA - LEHERIA E TRITIK DO RAJASTÃO": essa oficina também acontece em 4 encontros trabalhando 2 processos clássicos do acervo "badhnu" de estampas por reservas da Índia: o leheria, técnica criada pelo grupo étnico "marwari", com suas listras, xadrezes e plissados, e o tritik, talvez a mais antiga técnica de estamparia a fio tinto que o homem já criou. Ambas estampam os têxteis rajastanis e serão executados sobre algodão e seda, as sextas-feiras de 15/01 a 05/02/2016, das 14:30 as 17:30hs.

As inscrições abrem dia 05/01/2016 na unidade do SESC Belenzinho, rua Adelino 1000, bairro do Belem, a partir das 14:00hs e são presenciais. As vagas são limitadas.

 

SESC POMPÉIA:

"ESTAMPA E MODA - AUTORES" : essa é uma oficina especial que ministro na programação "Pano Pra Manga" do SESC Pompéia, sobre grandes parcerias entre designers de pattern e estilistas, a estampa aplicada na moda por grandes criadores. Estudaremos os trabalhos de parcerias históricas: Raoul Dufy & Paul Poiret na Paris do inicio do século XX; Varvara Stepanova & Nadezdha Lamanaova na Moscou soviética dos anos 20; o trabalho inovador na moda e na estampa da artista e designer Sonia Delaunay, o mundo estampado de Emilio Pucci, o "New Look" de Christian Dior no pós-guerra e sua versão nas telas do cinema pelas mãos da estilista Edith Head, e finalmente o encontro de Piotr Mondrian e Yves Saint Laurent nos anos 60. A oficina é teórica com exercícios práticos de criação de repertório em "découpe". São 4 encontros, as quintas-feiras de 14/01 a 04/02/2016, das 10 as 13hs.

As inscrições acontecem nos dias 08/01 (comerciários) e 09/01(publico em geral) na unidade do SESC Pompéia, rua Clélia 93, e são presenciais. Maiores informações no site das Oficinas de Criatividade do SESC Pompéia.

 

SESC PINHEIROS:

"INTRODUÇÃO À ESTAMPARIA: FLORAIS BRASILEIROS": oficina prática de estamparia desenvolvendo criação de padrões florais de chitas com nossas flores nativas. As chamadas "chitas brasileiras" serão o tema desse curso, um estudo de suas origens no inicio do século XX em Pernambuco assim como análise e discussão de seus padrões hibridos, herança das chitas européias, principalmente as portuguesas. A criação, contrução de rapport e desenvolvimento de paleta de cores, finalizando com a estamparia em pochoir (processo serigráfico artesanal) sobre algodão pretende como resultado uma autentica chita brasileira, com nossas flores como motivos. É uma oficina em 4 encontros, para iniciantes e profissionais, as quartas-feiras, de 20/01 a 17/02/2016, das 14 as 17hs. 

As inscrições acontecem a partir de 05/01/2016, na unidade SESC Pinheiros, na rua Paes Leme 195, e são presenciais. As vagas são limitadas.



Escrito por Celso Lima às 13h01
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RAPAZES & MOÇAS

  

Foi no inicio dos anos 80 que Alexander Marckand fundou sua marca de estampas, hoje uma referencia em pattern nos EUA: a "Alexander Henry Fabrics", com a intenção de criar um acervo dos mais diversificados para estamparias, a exemplo da "Marimekko" finlandesa. O resultado no entanto, devido a curadoria eufórica de Marckand, é um dos mais miscelânicos grupos de padronagens para têxteis. Apostando em motivos temáticos, sua marca traz uma cooperativa de centenas de designers e estudantes colaboradores, além de resgatar padrões retrôs em domínio publico. Hoje a "Alexander Henry Fab." é um monumento ao pattern "kitsh", deliciosamente cafona, mas contendo também alguns tesouros.

Um dos temas apresentados pela marca são as estampas com "rapazes" e "moças", em situações variadas, mas sempre muito sexys. Esses trabalhos são unicos no gênero, e muito divertidos, e sua aplicação pode causar frissons em ambientes. Os padrões de "cowboys" e "cowgirls" são artes de colagens com desenhos dos anos 50 e 60, produzidos para cartões festivos e cards para o publico adulto, e no caso dos desenhos de rapazes, especialmente para o publico gay da época. As "pin-ups" são clássicas, mas muitos temas foram redesenhados por Amanda Bonffitani, uma das curadoras da grife de tecidos. 

Recentemente, em aula sobre design de superfícies, os trabalhos renderam comentários e reações inusitadas, ou na verdade, bastante previsiveis. Quando apresentadas as estampas com os rapazes, a turma estranhou e achou "bizarras" e "engraçadas", mas as estampas com as garotas foram consideradas "lindas". Uma demonstração preocupante do sexismo em nossa cultura, principalmente com relação aos tabus envolvendo a figura do homem como objeto sexual, distinta da mulher, sempre em "oferta". Essa "disponibilidade" da figura feminina exposta na mídia e disceminada em um comportamento masculino que não vê nunca a mulher como interdita, senhora de suas escolhas, mas como um objeto de lazer, é talvez um dos maiores fatores que geram a violência contra a mulher brasileira, em vários graus e escalas. Atrelado a isso temos uma figura masculina valorizada apenas pelo exercício de poder em todos os âmbitos, desde profissional, passando pelo doméstico e chegando aos lazeres, e jamais explorado como figura de apelo sexual, desejado pela sua bunda, pernas, peitos, pinto. O sexual físico é a marca da servidão feminina em um país machista e ignorante como o Brasil, que gera uma visão falseada do homem, cujos resultados trágicos são a violência contra as mulheres e a homofobia, que crescem de forma alarmente no país.

Pois é, essa conversa toda em um curso sobre design, porque tudo se entrelaça, sem apartes ou interrupções. Achei curiosa a reação principalmente das mulheres, que foram justamente as que manifestaram uma rejeição maior pelas estampas dos rapazes, caracterizando também uma cultura reprimida, forjada por proibições e pelo aprendizado de uma falsa mitologia em torno dos valores masculinos, os unicos a serem respeitados. É preciso mudar isso, e começamos com essas estampas fabulosas da "Alexander Henry Fab.", totalmente "camps", deliciosamente cafonas e maliciosas. Maravilha, rapazes e moças animadissimos, que podem se tornar elementos divertidos em um ambiente livre de tabus mas cheio de vida.

  



Escrito por Celso Lima às 14h55
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ROBERT STEWART

Robert Stewart (1924-1995).

Esse é um dos meu designers favoritos, seja pelo seu estilo e elegância, seja pelo seu espirito combativo, jamais complacente, tão em falta atualmente. Robert Stewart nasceu em 1924 na cidade de Glasgow, na Escócia. Desde menino seu mundo se estruturou entre as artes, o desenho e a curiosidade pela história bretã, com destaque para a cultura gótica. Desenvolveu também um trabalho independente como pintor, influenciado principalmente pelo cubismo e pelos abstratos geométricos.

Estampa "Raimoult"/1955, criada para "Liberty of London".

Stewart ingressou na "Glasgow School of Art" em 1940, e em 1947 se tornou mestre em história da arte e design têxtil, já se especializando em design de pattern. Em 1949 foi nomeado diretor do departamento de ensino e projetos de criações para têxteis da GSA, e fez história no design de superfície britânico e europeu.

Estampa "Kilmun"/1954.

Em 1946, ao fim da guerra Stewart foi nomeado curador da "Liberty of London", famosa marca londrina de acessórios e têxteis para interiores. Sua primeira atitude foi arregimentar um staff de criadores, uma idéia de cooperativismo no design que lhe surgiu nos anos de guerra, na Glasgow School. Cooptou então jovens talentos do design para formação de uma "cooperativa de criação" dentro da "Liberty". Esse grupo de designers eram, além dele próprio: Lucienne Day, Sylvia Chalmers e Marian Mahler, os "Young Liberty", como o grupo foi chamado, se tornando um selo da "Liberty". Dominaram a cena do design têxtil britânico e europeu dos anos 50.

Patterns criados por Robert Stewart.

O trabalho de designer de pattern de Stewart, de influencias diversas e distantes entre si, como o modernismo e o gótico, se caracterizou pelo uso do "découpe" gráfico aliado a uma paleta de cores saturadas, com geometrias construtivas e adornos medievais em uma mesma composição. Tem em alguns de seus trabalhos a mesma idéia de um futuro tecnológico estilizado, a la "Jetsons", que se encontra também em alguns padrões de Lucienne Day, uma concepção otimista do futuro, que se opunha aos dias dificeis do recente passado de guerra. Criou para várias superfícies: têxteis, wallpaper, revestimento em fórmica (muito utilizada no design de mobiliário dos anos 50 e 60) e carpetes.

Estampa "Otter Ferris"/ 1957.

Sua energia e confiança possibilitaram projetos de renovação do design de superfície britânico e europeu na reconstrução do pós-guerra. Foi um momento de luminosidade que se acendia nos escombros fumegantes do ódio guerreiro. Stewart foi um critico contundente das politicas para a industria britânica no pós-guerra, que visava uma reposição material sem critérios, sem projetos e planejamento. Sua voz sempre se ergueu contra a voragem industrial mercantilista que dominou e corrompeu as linguagens do design contemporâneo a partir dos anos 70. Na "Glasgow School of Art" foram 35 anos lecionando design de superfície na escola, sempre combativo e critico. Esse espirito não existe mais nos dias de hoje, passivos diante de tudo que é vulgar e destrutivo.

Estampa "Macrahanish"/ 1954 / criada para a "Liberty of London".



Escrito por Celso Lima às 15h48
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TEMAS DE BERNHARD WENIG

 Gráfico e ilustrador, Bernhard Wenig foi um grande artista da edição, criando ornamentos para lombadas e ilustrações para gravação ou impressão de capas de livros e revistas ao final do século XIX e início do XX. Mas entre 1901 e 1903 criou uma belissima coleção de padrões para wallpaper e têxtil, estampas em rapport de rede, num triunfo do "jugenstill", o art-nouveau alemão, e até hoje um marco no desenho de superfície teutônico.

Wenig já era um conceituado ilustrador editorial quando foi convidado pela revista "Deutsche Kunst und Dekoration", uma das publicações mais importantes do setor de arquitetura e decoração do inicio do século, fundada em 1898 por Alexander Koch, para produzir padrões para divisões internas da revista e para estampar têxteis e wallpaper em parceria com a "Rasch", e posteriormente produzidos também pela "Berlin Polytex".

Seus desenhos florais, orgânicos, de beleza claustrofóbica na repetição do rapport em rede, em pequenas peças ornatas do "jugenstill", determinou um estilo na Alemanha, que seria reproduzido e imitado até a década de 20, quando a escola "Bauhaus" instala a modernidade construtiva em solo germânico.

O trabalho de Bernhard Wenig é um exemplo marcante do talento artistico de designers gráficos na produção de pattern no início do século XX, quando a industria têxtil acelera sua demanda na produção da estampa. Foi um episódio isolado em sua carreira, mas que marcou os rumos do desenho de superfícies alemão que nascia com o novo século.



Escrito por Celso Lima às 09h59
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XADREZ DE "MADRAS"

Essa é uma estória interessante sobre a colaboração entre dois homens em lados opostos na dramática e violenta colonização da Índia pelos britânicos, e conta também a origem de um tipo de padronagem do clássico xadrez, essa bela estampa que brota nas tramas tecidas no tear: o "madras".

Eram dois comerciantes, o oficial britânico John "Queenie" Mackenzie, que ao final do século XIX fazia na Índia contatos de importação de tecidos fabricados na Grã-Bretanha, e um indiano, que além do comércio tb produzia sua própria mercadoria, tecidos produzidos em sua pequena oficina tecelã, e seu nome era Nairu Patheni, que tb era tintureiro. O que os ligavam era o casamento, malvisto pelas autoridades coloniais britânicas, entre o filho de Mackenzie e a filha de Patheni. 

Tinturaria com indigo / Índia.

Foi idéia do oficial britânico produzir um tecido mais leve, fino, para camisaria, que se adequasse melhor as altas temperaturas do sul da Índia, favorecendo a transpiração, e Nairu, tintureiro do indigo e da curcuma, resolveu tecer com fios de ambas as cores, azul e amarelo, em cruzamentos, construindo no tear um belíssimo xadrez blocado, sem sets. Foi um sucesso entre os britânicos da colonia, logo sendo exportado para a Grã-Bretanha.

Tinturaria com curcuma / Índia.

Batizado com o nome da cidade aonde nasceu: "Madras", hoje chamada Chennai, no sul da Índia. O xadrez madras tomou o mundo no século XX, e hoje é um clássico, e seus largos xadrezes ganharam sets, ornamentos e são produzidos numa miríade de cores, além dos originais azul e amarelo, do indigo e da curcuma.

Nas fotos, o templo de Kapaleeswarar, em Chennai, neé Madras, e tecidos na estampa, além de produtos de vestuário e calçados com esse xadrez já um clássico do verão. Para maiores informações sobre a origem da estampa xadrez leiam o post "Xadrez" de 19/11/2008, no menu de datas.



Escrito por Celso Lima às 08h40
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 SOB NOVA DIREÇÃO

Depois de sofrermos com o macarthismo do Facebook, retomamos a saudosa casa velha aqui no blog. Andei relapso com as postagens por aqui, mas vamos reiniciar em novo formato, com drops sobre o universo do design de superfícies e outros assuntos, como cinema, musica, literatura, e por que não? sexo também. Para reinauguração na próxima semana, o tema sera a história do xadrez "madras". Para degustação, uma imagem do próximo post "Xadrez Madras".

 

Gravatas com tecido em xadrez "madras".



Escrito por Celso Lima às 16h29
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CLARISSE ROMEIRO ESTAMPA O BRASIL

 

Estampa "Pau Brasil" (a esquerda); estampa "Luar" (a direita).

Nosso primeiro encontro aconteceu na minha oficina de design de padronagens do SESC Pompéia, há alguns anos, como aluna e professor. Desde o início, sua curiosidade e interesse às histórias dos criadores e processos de rapport no design de superfícies, conteúdo do curso, demonstrava uma ânsia por conhecer e aprender todas as possibilidades que tantos já haviam proposto e realizado no design de pattern. Clarisse Romeiro já trazia então um trabalho engatilhado, um traço construido, e principalmente, um tema de interesse: o Brasil. E não um genérico nacionalista, alegórico e folclórico, mas o Brasil em suas expressões artesãs, matrizes, entranhadas no dia-a-dia de um grande país, multifacetado, e ao que se convencionou chamar "arte popular".

 

Estampa "Goiaba" (a esquerda); estampa "Carambola" (a direita)/ Coleção "Bela".

Durante nosso convívio como aprendiz/ professor, ela me entusiasmou com seu talento e dedicação, pois design é trabalho, mental e braçal. Já montava sua coleção "Ser ou não Sertão"/2011, pelo seu "Veredas Atelier". A proposta era arrojada, uma visão particular sobre o sertão, a região já muito representada pela arte, como a literatura de Guimarães Rosa e a pintura de Portinari. Viajando pela Paraíba, foi colher ela própria as impressões da dicotomia sertão/cidades que as regiões nordestinas, e todo a região central do país, vivenciam com dramaticidade, e muitas vezes tragédia. Mas Clarisse captou a beleza que existe na vida nordeste, interior, portas e janelas, gente, garra e força. Sua estampa "Vaca" é uma aula de pattern, um desenho poderoso com um estudo de rapport requintado, que não se ancora em softwares, um dos grandes entraves para um bom design de padrão atualmente no Brasil.

Estampa "Vaca"/ Coleção "SerounãoSertão"/2011.

O pattern de Clarisse é autoral desde a idéia de atração, o tema para desenvolvimento, até o resultado gráfico/artistico final. Seu rapport é atrevido, e ela busca sempre a dinâmica do movimento no padrão, que me encanta. A presença de ofícios como a xilogravura em alguns padrões, como "Vaca", denota seu interesse pelo uso de linguagens que reforcem a narrativa gráfica do pattern. O resultado é um design atraente, que vem chamando atenção de marcas interessadas em categoria, qualidade e sofisticação em seus produtos, todos quesitos absolutamente compatíveis com interesses mercadológicos.

Estampa "Son"/ Coleção "Kapulanas"/2012.

Também o valor de matriz cultural é um dos objetos de Clarisse. Na coleção "Kapulanas"/2012 ela se apropria de uma veste africana e desmonta o estigma colonial do "fancy-print", criando um padrão que traduz elementos da natureza, mas sem voz européia, é afro e é brasileiro.

 

Estampa "Vis"(a esquerda)/ estampa "Graan"(a direita)/ Coleção "Kapulanas"/ 2012.

Na coleção "Café Portrait"/2013 é onde mais identifico uma vontade de síntese de brasilidade em seu trabalho. A escolha do café e sua cultura no Brasil como tema traz também uma celebração de um país que enriquece, se urbaniza, mas cujas raízes culturais e sociais ainda permanecem no campo, na lavoura. E não é essa nossa gênese como nação? Nas estampas dessa coleção, as construções remetem aos clássicos europeus e suas rupturas: a azulejaria na estampa "Morro Azul" e o modernismo no pattern "Paulo Prado", uma homenagem ao cafeicultor, escritor e ativista da arte moderna no Brasil do inicio do século XX. Aqui é a cidade do café, ainda a "la européia", que surge, outra matriz na construção de nossa identidade.

Estampa "Arranjo"/ Coleção "Renovação"/2015.

Na coleção "Renovação", desse ano, Clarisse me orgulha, é de um atrevimento e profissionalismo absolutos, mostrando que é possivel ser original e comercial, sim, sem culpas ou concessões. Apresentando estampas com elaborações magistrais, como o padrão "Arranjo", um floral com rapport em cicatriz, que o mestre William Morris aprovaria com felicidade vendo seu método e grade ser utilizado com tanta maestria por essa jovem designer. "Arranjo" é uma homenagem a mestra Osana, mais uma rica referencia que Clarisse resgata. Na estampa "Buriti", de beleza e elegância ímpar, uma aula de síntese gráfica à partir de um fruto brasileiro tornado padrão art-deco, charmoso e retrô, é quase uma rima.

 

Estampa "Buriti" (a esquerda) / estampa "Sideral" (a direita, homenagem ao mestre Julio Santos)/ Coleção "Renovação"/2015.

Acompanhei o trabalho de Clarisse na seleção de cores para o "Buriti", e a impressão e produção de "Arranjo", e fiquei admiradíssimo com a seriedade e rigor que ela emprega ao processo, extremamente exigente que o resultado final no tecido seja indiscutivelmente fiel ao que foi criado, o que a torna, a meu ver, uma designer completa. Agora Clarisse enfrenta em nosso trabalho no Pompéia o ofício do block-printed, que executa com brilho, já que os processos de ofícios a interessa no aspecto de sustentabilidade e autenticidade na produção, objetivos de nossa oficina.

Clarisse Romeiro "armada" em block-printed (foto Leo Eloy).

Eu fico muito feliz e orgulhoso por compartilhar o trabalho de Clarisse Romeiro nos meus espaços, aqui no blog e mais ligeiro na minha página do Facebook, porque o design de superfícies no Brasil se encontra imerso em muitas questões primárias, como um mercado mercenário e sem critérios de qualidade, a má formação e informação de nossos designers, reféns de softwares, vítimas das adesivagens digitais sem valor autoral, e principalmente, sem repertório. O trabalho de Clarisse Romeiro à frente de seu "Veredas Atelier" é um oásis na paisagem árida do pattern contemporâneo brasileiro.

Edição de "Casa Vogue" com sofa forrado com estampa "Luar" de Clarisse Romeiro.



Escrito por Celso Lima às 13h02
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OBERKAMPF & UM "TOILE-DU-JOUY"

toile-du-Jouy

O ano era 1758, o bairro era o Marais, a cidade era Paris. Em um quartinho abafado pelos vapores da tinturaria do andar abaixo, um jovem de vinte anos experimenta químicas, óxidos e sulfatos, venenos do arsênio em misturas cloradas, açafrão do Marrocos impregnando o ambiente com seus perfumes, enquanto a laca chinesa é triturada com vontade pelas mãos do rapaz alemão, que trabalha em meio a uma barafunda de vidros coloridos, recipientes que contém a matéria prima tintureira: pigmentos, que se tornarão corantes, vetores da mágica das cores. Mágica? Não, química, e o colorista em ação chama-se Christophe-Philippe Oberkampf, um jovem teutônico que se tornará o primeiro grande criador e empresário do design têxtil na história moderna.

A tecelagem e estamparia "Oberkampf Cie" em Jouy-in-Josas.

Ele nasceu em Wiesenbach, na Alemanha, em 11 de junho de 1738, filho de um casal de tintureiros, as cores já em sua história desde o berço. Aos 17 anos rumou para a cidade de Mulhouse, na Alsácia, então uma das principais cidades tecelãs da França. Ali trabalhou como gravador de matrizes de impressão em madeira, grandes peças de block-printed, então o principal processo de estamparia nas oficinas francesas. Em 1758, em uma visita ao salão de artes no palácio do "Louvre" em Paris, Oberkampf conseguiu um trabalho como colorista em uma empresa que imprimia "orientais", como eram chamados os tecidos com temáticas indianas, as "chitas" francesas. A empresa "Toile Royale" era de propriedade de dois irmãos suíços, que ficam admirados com o trabalho de cores e desenhos de Oberkampf, assim como seu tino comercial, e lhe propõem sociedade em uma filial em Jouy-in-Josas, cidade tintureira próxima a Paris. Oberkampf recusa a sociedade, mas aceita um empréstimo em dinheiro para a abertura do negócio.

Balonismo em estampa "toile du Jouy".

Em 1759, Christophe-Philippe Oberkampf funda a "Royal Factory of Jouy", intitulada em inglês, pois já abria como fabricante e exportador, e iniciava ali um dos capitulos mais importantes na história do design moderno, em pleno século XVIII. Oberkampf era um amante das artes, autodidata, e admirador profundo dos autores do rococó francês, esse movimento tardio do barroco, muito popular na época. Seus pintores preferidos eram Antoine Watteau (1684-1721), então já um clássico, François Boucher (1703-1770), e principalmente seu contemporâneo Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). E Oberkampf tinha em mente uma estampa desenhada, inspirada nas cenas pastorais rococós, que fugissem aos temas orientais e exóticos asiáticos, tão repetitivos e já comuns, ele ansiava por uma estampa "européia". Os seus primeiros estampados foram produzidos com desenhos criados por ele mesmo, eram buquês florais e cenas urbanas, dos quais se possuem apenas recortes em antigas encadernações, mas o ponto forte de sua empresa eram tecidos tinturados e jacquards monocromáticos.

Padrão em "toile du Jouy" criado por Christophe-Philippe Oberkampf.

Um encontro histórico então acontece: Oberkampf conhece pessoalmente o pintor Fragonard em Paris, em 1768, e propõe a ele que desenhe padrões para sua estamparia. Inicialmente horrorizado com a idéia de criar para manufaturas, algo abaixo de sua posição como artista, Fragonard avalia sua situação financeira, péssima na época, e aceita o trabalho com uma condição: sem assinaturas. Com os desenhos belissimamente detalhados que Fragonard lhe apresenta, Oberkampf resolve imprimi-los em monocromias, numa valorização absoluta dos temas, e também uma novidade estilistica de baixo custo, testando um cilindro para impressão têxtil que ele próprio criara a partir dos cilindros em "intaglio" holandeses. Os irmãos suiços tinham razão, esse homem enxergava décadas adiante!

Máquina para impressão criada por Oberkampf.

Fragonard lhe entregou as artes, mas não entendia nada de estamparia, tampouco de rapport, mas Oberkampf aprendeu muito imprimindo "orientais", e é de sua autoria o rapport "alternado" das estampas rococós, que facilitavam a gravação dos cilindros, e em 1769 era lançado na França, pela marca "Oberkampf Cie." um tecido de cenas campestres, românticas, em monocromia azul sobre fundo branco, que o mundo hoje conhece por "Toile du Jouy". A grade de rapport alternado dessa famosa estampa até hoje leva o nome de seu autor: "grade Oberkampf". O branco do tecido chamava a atenção, e era obra de Claude Berthollet, quimico francês que trabalhava com Oberkampf e "redescobriu" o hipoclorito de sódio, que possibilitou a inovação da estampa sobre tecido branco, alvejado. O azul era obra de Euclide Orran, outro quimico, famoso por desmascarar o belo e fatal "verde de Paris", corante a base de arsenico que matou envenenada uma multidão de pessoas na Paris da metade do século XVIII. Ele criaria para Oberkamf tb um verde celebre, mistura de açafrão e indigo.

Padrão "fragonard" para o "toile du Jouy".

A estampa foi um sucesso e incendiou a França, já farta dos "toiles" de motivos exóticos. O "toile du Jouy" era elegante e divertido, e em 1774 Oberkampf lança sua versão em wallpaper, uma novidade inglesa que virava moda na França também. Inicialmente seu wallpaper era impresso em block-printed, já que a máquina de cilindros para tecidos não aceitava o peso do papel, mas em 1785 Oberkampf cria a primeira máquina para impressão de papel de parede, e o resto é história. Fragonard criou para Oberkampf quase uma centena de motivos, mas com a Revolução Francesa, em 1789, o tema rococó, muito ligado ao reinado louisiano, se tornou impopular. A solução inicial foi estampar florais apenas, sem as cenas oníricas e ociosas da corte pastoral, mas em 1809 uma nova colaboração tem inicio, agora com o pintor da revolução e de cenas militares Horace Vernet.

Padrão de Horace Vernet para o "toile du Jouy" com fundo geométrico.

Vernet não só aceita criar patterns para Oberkampf, agora célebre por toda a França, condecorado por Napoleão e reconhecido como o "maior industrial" da história do país, como tb assina, e o então famoso "toile du Jouy", que havia se tornado moda na Inglaterra também, ganha novos temas: as "estampas monumentais". Vernet também aplica "fundos" geometrizados nas estampas, e são cenas napoleonicas, monumentos, vistas urbanas de Paris, enfim, desenhos que traziam a "nova" França, agora uma potencia militar. Uma das ultimas parcerias de Oberkampf foi com Louis-Hippolyte Lebas, que se tornou o grande arquiteto do neoclássico francês, mas que desenhou padrões com temas arquitetônicos para o "toile du Jouy" quando jovem.

Padrão "tumba de Rousseau", da fase das "estampas monumentais".

Christophe-Philippe Oberkampf morreu em 04 de outubro de 1815, com sua empresa na falência, pois ele havia criado estilos e maquinários que influenciaram e provocaram grandes concorrentes, e uma má administração ao final da vida o levou a bancarrota. Seu filho Émile continuaria com os negócios, mas a empresa seria finalmente fechada em 1843. Mas Oberkampf e seu "toile du Jouy" fundaram a história do design moderno de pattern no ocidente, e durante o século XIX ele seria o grande patrono dos artistas da padronagem, além das contribuições tecnológicas que ele trouxe para a estamparia, em maquinários e soluções de colorimetria, pois criou mais de uma centena de cores para impressão. Eu sou absolutamente fascinado por seu trabalho, e até hoje sua estampa é um verdadeiro hit mundial, chic, elegante e divertida, mais de dois séculos depois.

Padrão com tema da estamparia de Jouy-in-Josas para o "toile du Jouy".



Escrito por Celso Lima às 16h39
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"OMEGA WORKSHOPS"

Eles foram um grupo festejado, amigos com idéias renovadoras para a literatura, as artes e o design, e tudo foi idéia de um sujeito muito atrevido: o critico e ensaista britânico Roger Fry. O ano era 1913, o bairro era Bloomsbury, a dona da casa era a escritora Virginia Woolf, e o projeto que nasceu nas reuniões regadas a brandy e chá chinês propunha chacoalhar o ideário de William Morris, tornando-o também uma praxis industrial, além da artesania proposta pelo mitológico designer.

  

Estampa "Maud" de Vanessa Bell (a esquerda)/ estampa de Duncan Grant (a direita).

A "Omega Workshops" foi fundada em julho de 1913, inicialmente dirigida por Roger Fry, e aberta ao publico na 33 Fitzroy Square, no bairro intelectual londrino de Bloomsbury. Fry estava associado a artistas e designers que compunham o lendário "grupo de Bloomsbury", que se reunia na residência de Leonard e Virginia Woolf, e que pretendiam desenvolver design numa experiência coletiva. A idéia original era seguir a trilha, com uma certa subversão, do movimento "Arts & Crafts" de William Morris, que na segunda metade do século XIX estabeleceu os moldes conceituais e produtivos do design moderno. O diferencial seria o abandono dos ideais socialistas de Morris, assim como sua aversão às linguagens industriais.

Seda estampada / Vanessa Bell.

Os primeiros projetos atendiam ao design de pattern e mobiliário, com os trabalhos da designer de interiores e também pintora Vanessa Bell, irmã de Virginia, e do artista plástico Duncan Grant. As peças produzidas eram luxuosas mas em série, e levavam apenas a marca "Omega", já que nenhuma peça produzida pelo grupo levava assinatura, apenas a grife coletiva. O significado da marca "Omega" garantia as pretensões: era a última letra do alfabeto grego, e a última palavra em vanguarda no design!

Estampa "Amenophis" de Roger Fry.

Por ali passaram grandes nomes das artes e do design, como Wyndham Lewis, Paul Nash, Alvaro Guevara e Mickail Larionov, entre outros, mas foi Roger Fry e Vanessa Bell que ditaram as escolhas estilisticas da "Omega", influenciados pelos movimentos de vanguarda das artes, como o cubismo e o fauvismo. Bell e Duncan Grant assumiram a direção da "Omega" a partir de 1915, quando se estabeleceram as parcerias com industrias londrinas, terceirizando a produção, como a "J. Kallenborn & Sons", que produziam o mobiliário desenhado pelo grupo.

Desenho para tapete "Peacocks" / Roger Fry.

Vanessa Bell, irmã da maior escritora da língua inglesa no século XX, Virginia Woolf, e capitã do "grupo de Bloomsbury", foi uma grande designer de pattern, e seu trabalho traz elegância e temas aquarelados, admiro muito a leveza dos traços em seus desenhos. Duncan Grant criou magnificos padrões expressionistas, e é considerado o grande criador da "Omega", ao lado de Vanessa. Formaram também um quarteto amoroso do balacobaco com Clive Bell, marido de Vanessa, e David Garnett, amante de Grant. Nessa estória até o economista John Maynard Keynes entra, pois viria a ser o grande amor na vida de Duncan Grant. Como podem ver, essa turma da "Omega" criava e se divertia muito!

Estampa "Queen Mary" de Duncan Grant.

Um dos objetivos da "Omega Workshops" era eliminar definitivamente as divisões e dicotomias entre arte e design, intenção pretendida por William Morris em seu "arts & crafts", numa experiência semelhante a "Wiener Werkstätte", a oficina vienense também coletivizada fundada pelo arquiteto Josef Hoffmann em 1903. Na "Omega" se desenhou de tudo: padronagens têxteis, tapetes, mobiliário, encadernações e design de interiores. Dos projetos de encadernações brotaria a "Hogarth Press", a lendária editora fundada por Leonard e Virginia Woolf em parceria com Roger Fry, e que editaria no Reino Unido grandes nomes da literatura européia e mundial, como Marcel Proust, Franz Kafka, Thomas Mann e Sigmund Freud, entre outros titãs das letras.

Tapete com padrão de Duncan Grant.

Mas no entanto, apesar do brilho de suas criações, a má administração financeira levou a "Omega" à falência e fechamento em 1920. Mas foi um momento de vanguarda do design envolvido por idéias libertárias e estilísticas, no alvorecer da modernidade no século XX.

Carpete com padrão de Duncan Grant.



Escrito por Celso Lima às 21h08
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"10-GRUPPEN"

"10 Gruppen"

Foi em 1970 que os dez designers suecos se reuniram nessa empreitada maravilhosa, uma "cooperativa" do design de pattern, com a intenção de revolucionar a sonolenta padronagem têxtil sueca. Era também uma provocação divertida à marca finlandesa "Marimekko", fundada em 1957 pela designer Armi Ratia (1912-1979), e que faz história até hoje no design de padrões, e paradoxalmente a grande influencia do "10-Gruppen" (ou "Tio-Gruppen"), que viam na "Marimekko" o ponto de partida na renovação estética do design de ambiente nórdico.

Estampa "Pepper" de Birgitta Hahn para o "10-Gruppen".

E quem eram esses dez designers? Em sua maior parte, jovens que se iniciavam na indústria têxtil sueca, e que recusavam as normas conservadoras que lhe eram impostas nos projetos e criações. Na verdade, a industria sueca, e nórdica como um todo, se encontrava ainda à mercê das questões restritivas de custos impostas pelo pós-guerra, e também pela implantação de politicas econômicas draconianas, estabelecidas pela social-democracia na construção de um aparato social, amparado em valores igualitários também para a produção e o consumo.

Um dos ultimos trabalhos: estampas para a PUMA sueca/ "10-Gruppen"/ Hahn, Häkansson e Hedqvist 2014.

O "10-Gruppen" nascia no momento em que a contestação desses valores conservadores era necessária, inclusive para a realização do socialismo nas democracias nórdicas de maneira realista e integral. O grupo era formado pelos designers Birgitta Hahn, Tom Hedqvist, Ingela Häkansson-Lamb, Inez Svensson, Britt-Marie Christoffersson, Lotta Hagerman, Gunila Axen, Susanne Grundell, Carl Johan De Geer e Tage Moller.

Estampas "10-Gruppen".

De início suas estampas provocaram impacto e rejeição, matizes saturados, intensos, que coloriam geometrias e grafismos provocantes, flertando com a arte abstrata sueca, já que alguns dos integrantes possuiam trabalhos plásticos paralelos. Mas uma nova geração exigia uma nova estética, e a primeira loja do "10-Gruppen" em Estocolmo logo se tornou um sucesso, influenciando todo o design de pattern nórdico e também europeu.

Estampas "10-Gruppen".

Uma das intenções do trabalho do grupo era produzir uma linguagem gráfica contemporânea, absorvendo influencias da pop-art, mas com estilo, o que os diferenciou de sua antecessora finlandesa "Marimekko", cujo menu era absurdamente eclético, numa aposta multi-estilística. Com o passar dos anos, vários integrantes foram desenvolvendo projetos próprios, em carreiras solo, se desligando do "10-Gruppen".

Estampas "10-Gruppen" revestindo.

Na ultima década, apenas Birgitta Hahn, Ingela Häkansson-Lamb e Tom Hedqvist permaneciam a frente dos negócios do "10-Gruppen". Em fevereiro desse ano, a loja em Estocolmo foi fechada e a marca vendida. Era o fim de uma grande aventura do pattern, que durou 45 brilhantes anos. Fica o belíssimo acervo de quase 700 padrões criados, para nos influenciar e ensinar no caminho do bom design. Um viva!! ao "10-Gruppen"!

* ver também o post "Marimekko - A Estampa que Veio do Frio" de 23/04/2013.



Escrito por Celso Lima às 10h43
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"VKHUTEMAS": USINA DO MODERNO

Cartaz de Lazare Lissitski para a oficina de arquitetura do "Vkhutemas".

Talvez a maior aventura já experimentada na construção da modernidade aconteceu na esteira de um dos maiores eventos politicos do século XX, a Revolução Bolchevique de 1917, na Rússia, e foi a fundação de uma grande usina de criação e produção de arte e design: a escola e ateliês de ofícios "Vkhutemas", o laboratório aonde foi engendrado o futuro em formas e estruturas. Absolutamente desconhecida no Ocidente, o "Vkhutemas" começa a ser desvendado e redescoberto em nossos dias atuais, depois de quase um século de boicote promovido a arte e design da URSS, quando fomos privados dessa matriz de criações e soluções para um mundo de amanhã.

 

Sala de aula da oficina de pintura.

O "Vkhutemas", ou "Atelies Superiores Técnico-Artísticos Estatais", já que seu nome é um acronimo, foi fundado em 1920, em decreto oficial, por Anatoly Lunatcharsky (1875-1933), o primeiro "Comissário do Povo para Educação e Cultura" da Rússia soviética, a partir da fusão de 3 escolas estatais já existentes desde 1918: "Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou", "Atelies Nacionais de Ofícios e Artes Livres" e a mais antiga, a "Escola de Arte Industrial Stroganov". A função do "Vkhutemas", desde o seu início, foi o ensino de produção de arte e design, agora aliados pelo movimento construtivista, que servissem ao projeto de reconstrução urbana e industrial da Rússia revolucionária dos sovietes, assim como estabelecer os novos parâmetros de consumo adequados ao ideal igualitário socialista, nas propostas do marxismo-leninismo. Era um mundo novo que nascia, em ideais e formas, e o que se desenrolou ali foi na verdade o surgimento do design moderno, que até hoje reverbera pelo mundo, com os créditos todos para a "Bauhaus" alemã, equivocadamente. É inutil e irrelevante comparações entre as duas escolas, já que a produção do "Vkhutemas" é desproporcionalmente maior e superior em arrojo do que sua contemporânea alemã, que foi fortemente influenciada pela escola soviética.

Projetos de Krouthikov, Leonidov e Grichpoune.

Era aberta a todos, sem exigência de curriculos e sem imposição de pré-requisitos, apenas a condição de alfabetizado para o inscrito, e quando abriu suas portas eram 1467 inscritos, homens e mulheres, em sua maior parte oriundos das classes baixas, sendo 1/3 dos alunos do sexo feminino, algo só possivel em 1920 na Russia soviética, aonde ocorriam mudanças dramáticas na estrutura social do país, e a luta pelos direitos das mulheres alcançou um sucesso até hoje não igualado no Ocidente (a "Bauhaus" abre em 1919 com 150 matriculados, quase todos advindos da elite alemã, e com pouquissimas mulheres inscritas).

Sede do "Vkhutemas" em Moscou.

O ensino no "Vkhutemas" se caracterizava por um curso preparatório, o "Svoma", já existente tanto na "Stroganov" quanto nos "Atelies Nacionais", mas que foi ampliado: no "Vkhutemas", o curso possuia a duração de 2 anos. A função do curso preparatório era propiciar a todos os alunos uma formação ampla em todas as áreas. Ele era composto das seguintes disciplinas: "Superfícies", "Cores", "Propedêutica: Volume", "Propedêutica: Espaço" e "História da Arte". As oficinas regulares do "Vkhutemas" eram: "Arquitetura", "Projeto de Cores e Diplomação Propedêutica", "Trabalho em Metal", "Trabalho em Madeira e Metal", "Têxteis", "Cerâmica", "Artes Gráficas", "Pintura (Cavalete, Decorativa e Monumental)" e "Escultura".

 

Projeto de aluno com estudo de volume arquitetonico.

O aluno integrava as oficinas em projetos assim que encerrasse o curso preparatório, mas isso acontecia em etapas, e muitas vezes simultaneamente. Havia um compromisso da escola com a construção material do sonho socialista soviético, e ali, além de arte e design, projetos arquitetônicos de cidades inteiras foram realizados, em uma associação monumental de criação e produção.

 

Torre de transmissão fotografada por Alexander Rodtchenko/ padrão construtivista axonométrico Rodtchenko/Stepanova.

Foram muitos a ensinar no "Vkhutemas", com destaque para Alexander Rodtchenko, um dos grandes idealizadores da escola, e uma espécie de mentor, um artista múltiplo, fascinante, e grande teórico do design moderno, Alexei Babitchev, Victor Balikhine, Vassily Kandinsky (que comandou a oficina de arte, o "Inkhuk", que funcionava dentro da escola e que foi depois assimilado, em 1921, provocando sua saída), Alexander Chevtchenko, Anna Alexandrovna Exter, Alexei Filippov, Gustave Kloutsis (magnifico artista gráfico), Nicolas Ladovski, Anton Lavinski, o lendário Lazare Lissitski, o mega arquiteto Konstantin Melnikov, criador do mitico pavilhão soviético na Feira Mundial de Paris de 1925, entre outras obras-primas da arquitetura moderna, o espetacular artista gráfico Piotr Mitouritch, a cubista Nadedja Oudaltsova, a grande ceramista Oksane Pavlenko, o cenógrafo Isaac Rabinovitch, os titãs Vladimir Tatline e Alexandre Vesnine.

  Pavilhão da URSS na Feira de Paris 1925/ Melnikov.

Na oficina têxtil, de nosso particular interesse, imperavam a grande mestra Varvara Stepanova (1894-1958), que dirigiu a oficina até o fechamento em 1930, e a grande artista cubo-futurista Liubov Popova (1889-1924), ambas designers de pattern. Na colorimetria ensinava a designer Liudmila Maiakovskaya (1884-1969), oficina que incluia aerografia e tecnologia têxtil, e irmã do trágico Hércules da poesia russa e revolucionário futurista Vladimir Maiakovsky (um dos meus poetas favoritos, o grande "Volodia"). Também mestre na oficina têxtil, Oscar Grioune ensinava impressão industrial. A produção de design de pattern na oficina têxtil do "Vkhutemas" resultou dois estilos marcantes: os geométricos abstratos construtivistas e os temáticos.

 

Padrões temáticos.

Nos padrões geométricos abstratos construtivistas, a influencia era cubo-futurista, com o desenvolvimento de geometrias axonométricas em representação bidimensional, resultando em padrões ópticos com um trabalho de contrastes alternados de cores, produzindo efeitos de contração e expansão. Os temas geométricos representavam registros sensoriais de forças físicas, como impulsos elétricos e forças pressóricas, centrifugas e centripetas. No trabalho de Varvara Stepanova ressalto a maestria com que ela trabalha o "padrão frontal" e o "padrão de fundo", e junto com Liubov Popova, são as duas grandes designers de pattern do construtivismo russo.

Padrão construtivista geométrico abstrato/ Liubov Popova.

Os designers que produziram o belíssimo acervo das estampas temáticas, que trazem nelas todo o cotidiano produtivo agrícola e industrial, e também a cena urbana desse novo mundo, a república dos sovietes, são os responsáveis por algo inusitado: um "art-deco" soviético. A influencia do movimento "art-deco" é claro nos desenhos de padrões, retratando chaminés de fábricas, trens, ondas elétricas, ondas de rádio, a educação coletivizada das crianças, esportistas, usinas, máquinas agrícolas, como tratores e ceifadoras, tudo compondo um cenário fascinante, de um país que se forma a partir de uma ideologia igualitária, e se orgulha disso. Os temáticos surgem em uma celebração do primeiro "Plano Quinquenal", um planejamento econômico desenvolvido para um prazo de 5 anos envolvendo indústria e agricultura, e que foi a base da política econômica soviética até a Segunda Guerra. Eu sou particularmente apaixonado por essas estampas, de uma beleza incomparável. Destacam-se entre os designers temáticos do "Vkhutemas": Sergei Burylin, Marya Anufrieva, Oskar Grjun, Elizaveta Nikitina, Raisa Matveeva e F. Antonov (todos inicialmente alunos da escola).

 

Padrões temáticos.

Durante quase um século a detentora dos créditos pela criação do design moderno foi a escola alemã "Bauhaus", fundada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius. É importante contar que Gropius esteve em Moscou visitando os "Atelies Nacionais", na prática já o "Vkhutemas", em 1918, e foi inspirado pelo modelo soviético para a criação da escola alemã. Mas diferenças existem, já que a "Bauhaus" possuia, na figura de seu fundador, uma ligação com o movimento "Deustcher Werkbund", que ditava as regras do modernismo alemão desde o inicio do século. Mas tanto o curso introdutório da "Bauhaus", o "Vorkurs", era absolutamente o mesmo dos "Atelies Nacionais", quanto a estrutura de uma escola de oficinas e projetos era também inspirada pela soviética. No entanto, será Hannes Meyer, um dos diretores da "Bauhaus", admirador e amigo de Rodtchenko e grande entusiasta do "Vkhutemas", que aproximará as duas escolas. Com o passar dos anos e com o resgate, que começa a acontecer, da escola soviética "Vkhutemas" depois de quase um século de boicote cultural a URSS, será possivel estabelecer com segurança as colaborações (e houve muitas, com trocas de visitas e correspondências entre alunos e mestres de ambas) entre elas, assim como suas diferenças. Mas fica já evidente que a escola soviética exerceu forte influencia sobre a alemã, e não o contrário.

 

Cartazes de Gustave Kloutsis.

Mas a experiência foi avante demais, e o "Vkhutemas" foi fechado em 1930, por decreto de Josef Stalin, que via a escola como uma usina de criação, pensamento e reflexão do grande projeto socialista soviético, um tanto ameaçadora para seu plano centralizador de poder, cujo resultado conhecido por "stalinismo", foi um estado totalitário, terrorista e policial, o esfacelamento do sonho de um novo mundo, que durou apenas 10 anos. Mas se faz urgente seu resgate, para que possamos usufruir de seu acervo de idéias, soluções e propostas. Quem sabe então, sem maneirismos tecnológicos e performances inúteis, nos tornemos de fato "modernos".

Cadeira de Vladimir Tatline.



Escrito por Celso Lima às 15h14
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CURSOS / SESC BELENZINHO

"VKHUTEMAS E BAUHAUS - AS MULHERES NAS ESCOLAS DA MODERNIDADE"

 

Anni Albers.

Uma visita as duas grandes escolas que definiram o moderno como concepção, forma e traço para o século XX, duas grandes usinas de talentos que revolucionaram o desenho, estendendo suas influências até os dias de hoje. A oficina pretende uma atenção especial ao papel capital das mulheres, alunas e mestras, da escola soviética "Vkhutemas" e da alemã "Bauhaus", na determinação de uma nova linguagem estética, tanto na representação e concepção criativa quanto na função e forma, reunindo arte e design. Também o papel arrojado pretendido para a mulher pelos ideais revolucionários dos primeiros anos soviéticos, uma utopia libertária e igualitária, e a realidade dos valores e direitos usurpados que afinal se impuseram durante o século XX para o protagonismo feminino, serão temas de discussão nos encontros. Experiências práticas em criação de padrões para estamparia têxtil serão realizadas, com a utilização dos acervos criados por algumas das mais importantes artistas no design têxtil dessas escolas, como as soviéticas Varvara Stepanova e Liubov Popova, e as alemãs Gunta Stölzl e Anni Albers, entre outras, utilizando processos serigráficos artesanais sobre algodão, com propostas de estampas para vestuário e forração, e alternativas sobre papel para estampas wallpaper. Serão 6 encontros, nas noites de terças e quintas-feiras, das 19:00 as 21:30hs, de 24/02 a 12/03/2015.

 

Varvara Stepanova.

"MULHERES NA PADRONAGEM"

Lucienne Day.

Durante essa oficina conheceremos a história das grandes designers que criaram os padrões que revestiram o século XX, do vestuário aos sofás e paredes, com atenção especial ao desenho modernista surgido na primeira década do século. Padrões gráficos criados por artistas como Lotte Frömel-Fochler e Maria Likarz, da "Wiener Werkstätte", às designers que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, como Lucienne Day e Jacqueline Groag, além de artistas brasileiras que trabalharam o elemento gráfico de padrões em suas obras, como as pintoras Tarsila do Amaral, as serigrafias de Lygia Clark e as gravuras e embalagens de Lygia Pape, serão transformados em novas propostas de padrões pelos alunos, utilizando como ferramenta a técnica do "découpe", adaptado para a estampa pela estilista Coco Chanel, com estudo de cores e impressão final em serigrafia artesanal sobre algodão. Realizaremos 6 encontros, nas noites de terças e quintas-feiras, das 19:00 as 21:30hs, de 17/03 a 02/04/2015.

 

Lygia Pape.

Esses cursos fazem parte de extensa programação do SESC Belenzinho abordando a mulher nas artes e no mundo. As inscrições acontecem a partir de 03/02, na unidade do SESC Belenzinho, na rua Padre Adelino, 1000, Belém, na cidade de São Paulo (fone para informações: (11)20769700). As vagas são limitadas.



Escrito por Celso Lima às 12h15
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