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ESTAMPAS SOCIALISTAS NA UTOPIA SOVIÉTICA

Foi em 1917. Em outubro. No rescaldo da carnificina em curso da Primeira Guerra, aconteceu na Russia, resultado de misérias e violencias seculares impostas por aristocracias imperiais, um dos maiores acontecimentos históricos do século XX: a revolução russa bolchevique. A Russia era em 1917 um grande campo minado de pobreza, doenças e fome, frutos de uma monarquia absolutista infame, o czarismo. Em fevereiro, com o agravamento da fome motivado pela entrada do pais na guerra, quando os estoques de alimentos se esgotaram completamente em meio a tremenda crise politica causada pela depravada corrupção czarista, o exército russo, permeado pelas ideias republicanas da epoca, tomou o poder e instituiu um arremedo de republica, um monstrengo liberal chefiado por Alexander Kerenski. A tentativa de manutenção do poder pela burguesia russa duraria pouco: em outubro, liderados por Vladimir Lênin, o proletariado russo se instalou no Kremlin, fundando a republica dos sovietes. Começava então uma das mais fantasticas aventuras do homem: a fundação de um estado igualitário, chefiado pelos trabalhadores, homens e mulheres em iguais condições de deveres e direitos, um sonho utópico que instalaria o moderno na vida humana, polis platonica do socialismo. 
Aleksandr Rodtchenko e Varvara Stepanova/ 1925. As pretensões de Lênin e dos bolcheviques eram enormes e sonhadoras, e de certa forma impraticaveis, dada a agressividade e ódio que despertaram em um mundo comprometido com a industria do dinheiro, que perdura vencedor até os dias de hoje, já em frangalhos. O sonho socialista dos sovietes durou até 1925, apenas oito anos, quando começou a ser triturado pelos fumos de furia e terror de Josef Stalin, que sucedeu Lênin, morto em 1924. A história da URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas) ainda esta por ser contada, ja que os ódios e magoas ainda são recentes, e a narrativa de fatos e acontecimentos segue a tradicional historiografia meramente documental, e não sera em um espaço curto que se falara sobre assunto tão vasto. 
Estampa "Hydroeletric" / 1929/ border. Meu fascinio pela Russia soviética se encontra naqueles primeiros anos da segunda década do século XX, a partir de 1910, quando movimentos inovadores de artistas e intelectuais russos rompem toda a teia conservadora da estética e pensamento europeu da época, ainda presos a Belle Époque oitocentista. O futurismo russo, fundado por artistas como o poeta Vladimir Maiakovski e o fotógrafo Aleksandr Rodtchenko, pregava o rompimento total com a arte contemporanea, considerada "resíduo burgues". Foi das premissas do futurismo que o moderno europeu nasceu na vanguarda russa, culminando no construtivismo, que trazia a arte aliada ao cotidiano humano. 
Estampa "Symbols of industry" / 1927/ Darya Preobrazhenskaya. O construtivismo russo pariu todo o modernismo, e um dos seus maiores frutos surgiria anos depois, quando na Russia suas ideias ja eram então consideradas "contra-revolucionarias": a Bauhaus alemã. Toda a manifestação artistica se viu envolvida por essas novas idéias, e na estamparia, então uma das ferramentas na construção gráfica da nova identidade soviética, a incorporação de aspectos cotidianos foi utilizada na representação de uma nova vida, a felicidade proletária. Estampas de maquinários, aviões e trens, ferrovias e usinas (a estampa de "Waves", de 1927, representando as ondas elétricas de transmissão é de uma pureza e perfeição gráficas absolutas), camponeses e estudantes constroem toda a padronagem soviética, em realizações fabulosas (até hoje nunca encontrei estampas infantis tão singelas quanto "Children playing"/1928 e "Children exercising"/1930, da designer Elizaveta Nikitina). 
Estampa "Children playing" / 1928 / Elizaveta Nikitina. São muitos os artistas da estampa nesse periodo, quase todos artistas gráficos também empenhados na propaganda soviética, como os famosos cartazes de arregimentação e exaltação, assim como jornais e revistas (um exemplo é a futurista "LEF", modernérrima!). Alguns se destacam como Varvara Stepanova (1894-1958), Liubov Popova (1889-1924), Lya Raiser (1902-) que utilizava letras e numeros institucionais soviéticos para suas estampas, Raisa Matveeva (1906-), Darya Preobrazhenskaya (1908-1972), Lyubov Nikolaevna Silich (1906-1992) e Sergei Burylin (1876-1942) entre outros. As estampas geométricas de Varvara Stepanova (que era companheira do fotografo Rodtchenko) antecipam o óptico, assim como as mulheres trabalhadoras no campo são transformadas em verdadeiros florais por Marya Anufrieva (1902-), em cores explosivas. Me emociono olhando "Locomotives"(1920), de Burylin, é uma jóia de design gráfico e rapport, também em cores fortes, uma caracteristica desse periodo. 
Estampa "Women harvesting"/ 1928/ Marya Anufrieva (a esquerda); estampa "Factory"/ 1927/ Sergei Burylin (a direita). A infancia, a juventude e a maturidade são representadas em varias situações de ações coletivas, numa afirmação constante de uma nova realidade, para todos. Com a morte de Vladimir Lênin em 1924 e o afastamento de Leon Trotski (1879-1940), os grandes pensadores e articuladores da revolução soviética, o comando da utopia caiu nas mãos de Josef Stalin, um imbecil sanguinario que transformaria a republica dos sovietes num reino de terror e silencio, levando ao extremo a frase de Franz Kafka sobre as revoluções: "...começam gritando liberdades e terminam organizando polícias..." Em 1933 o Conselho Comissariado do Povo, por vontade de Stalin, decretou que era proibida a representação de bens e meios de produção, assim como de registros do cotidiano civil e sua utilização gráfica em texteis, e toda a riqueza em design produzido durante mais de uma década retratando o exercicio e construção de um novo mundo chegou ao fim. A estamparia soviética seria, a partir de então, anódina e anonima. 
Estampa geométrica de Varvara Stepanova e Liubov Popova/ 1923 (a esquerda); estampa geométrica de Varvara Stepanova/ 1925 (a direita). Todo o acervo produzido por esses fantasticos designers permanece um tesouro gráfico da modernidade. As influencias da estampa construtivista soviética se estenderam por todo o século XX, estabelecendo um novo traço, introduzindo angulares inéditas ao rapport, renovando a paleta de cromia, mas principalmente, documentando esse momento unico em que um povo ousou escolher ir à frente, confrontar e renovar, tornando possivel, mesmo que brevemente, a utopia do homem social. 
Estampas geométricas de Liubov Popova: 1924 (a esquerda) e 1923 (a direita).
Escrito por Celso Lima às 15h59
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TCHAU 2011, Oi 2012 Desde pequeno uma frase sempre dita por minha avó e minha mãe já me alertava: “... a vida tem relógio...” E assim são as coisas no mundo, e nesse ano de 2011 não foi diferente. Em uma noite de julho, num inverno adequadamente cinza, nossa Isabel, a nossa “karenin”, se foi, mergulhando nossa vida numa tristeza tão grande. Era “apenas” um cão, já muito velhinha e, no entanto ela e sua mãe, Kalu, a grande senhora que perdemos em 2008, representavam para nós toda uma fase de vida, de começos e recomeços, com elas sempre ao nosso lado. Elas foram o relógio, de certa forma, da nossa juventude. Mas criaturas humanas que somos, resilientes, vamos em frente, menores com certeza, mas em frente. Houve muitos trabalhos, bem sucedidos ou não, tanto foi lido (foi o ano em que redescobri o romance policial...fuga?... e tive muito Maiakovski, Garbo e João Goulart, meu presidente favorito..!), visto e tocado, enfim (muito da nossa cinemateca e pouco nas telas, infelizmente o cinema, nesse apagar das luzes da civilização, meu Deus...). Mas também, e isso nos fortalece, muito nasceu em nossa casa nesse ano, como para nos reconfortar. A roseira se superou, talvez sentindo a concorrência do hibisco, tão escandaloso com sua floração tropicalista (as pessoas param na calçada para apreciar nosso jardim estampado em vermelho e laranja), ambos protegidos pela sombra generosa da quaresmeira, que floriu praticamente o ano todo. Nossas bananeiras já estão gestando um segundo cacho (colhemos um no meio do ano, enorme e delicioso), e a goiabeira esta carregada de flores, linda, os beija-flores tão fazendo a festa e a passarinhada tá só na espera da frutaria (enquanto isso se fartam no bandejão de frutas e sementes que montamos no fundo do quintal). A hortencia esta cheia de novidades, esse ano ela escolheu o rosa, cada ano floresce em uma cor, fashionista total. No meio disso tudo nossa Chica se farta ao sol, lagarteando a vontade, gosto que herdou da avó, que tanto amava nossa estrela. E assim foi a vida para nós em 2011, sempre com seu tic-tac. Porque nosso entendimento deformado do viver nos deixa completamente despreparados para apreciar, sorver e despedir nesse moto-continuo. Nesse 2012 eu desejo para todos que frequentam esse espaço, e para todos, enfim, uma felicidade imensa, mas um tanto melancólica, apreciativa, sem a histeria doentia dos shoppings. E que olhem em torno de si, para todos e tudo o que amam, e que estejam presentes nesse momento, que é seu agora, mas não para sempre.

Escrito por Celso Lima às 22h56
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BATIK PERADA Hollywood, Los Angeles, 1931 - Os assistentes ainda dão os ultimos retoques no enorme cenario, que ocupa a maior parte do set de filmagem. Nele tudo é farsa de cinema: representa o palco de um grande teatro de Paris, aonde esta montado um exótico templo javanês, pedra e ouro em ilusões de papel. Toda a equipe se encontra a espera da atriz, e por conta de sua presença existe uma eletricidade tensa por todo o estudio: aos 27 anos, essa jovem sueca passeando pelos celulóides do cinema se tornou um mito. Mas as luzes se apagam, e no centro do falso palco parisiense um canhão de luz ilumina um pequeno ponto, apenas duas mãos, que começam a execução de uma estranha mímica, na verdade exótica dança das mãos... e então, em meio as trevas ele surge: o rosto... encimado por um diadema dourado, sua beleza é dilacerante, visão de deusa encarnada. Ali, na mentira mágica do cinema, Greta Garbo é o "olho do sol", Mata Hari, a dançarina burlesque de Java que, por amor e desejo, traiu nações e exércitos. Greta Garbo hipnotiza como Mata Hari / 1932.
Greta Garbo, essa mulher cuja beleza perfeita é uma lenda das telas, desfilou sua Mata Hari envolta em lamês e pedrarias, um falso ouro na barroca Java da MGM, um delirio de luxo exótico. Mas não nos enganemos: Java pode ter sido mais suntuosa do que Hollywood possa ter pretendido. Uma prova disso é um riquissimo processo de estamparia com ouro da antiga ilha: o "batik perada". Batik lamak perada no norte de Bali (Singaraja)/1900.
"Batik perada" é um dos capitulos mais ricos desse fabuloso método de estamparia: o batik tulis javanes. Tulis designa o processo manual de estampar por mascaras de cera de abelha e tingimentos de Java, Sumatra e Bali, entre outras ilhas do arquipelago da atual Indonésia. Com quase 2.000 anos de idade, essa técnica possui história extensa*, mas foi a partir do século XVII que surgiu o processo de acabamento em ouro nos desenhos previamente estampados em batik tulis. A ourivesaria do tecido era feita por meio de uma pintura sobre os motivos com uma pasta produzida com resina vegetal e ouro em pó ("prada"). Veste cerimonial em batik lamak perada de Bali (Karangasem)/século XIX.
O adorno dos batiks com ouro resultava em peças requintadas e luxuosas e era feito especialmente para as cortes dos sultanatos que reinaram nas cidades de Java e Sumatra até a metade do século XIX. Hoje esses estupendos tesouros da arte textil existem apenas nos museus e em coleções particulares, e os que ilustram esse post pertencem a pesquisadora norte-americana Mary Kahlenberg. O batik perada, dourado capitulo da história dessa magnifica arte de estampar, o batik tulis javanes, mostra como o luxo pode ser também o resultado de elaborada criação na arte. Planji de Java em acabamento perada (Surakarta)/ 1905. NOTA: Eu dedico esse post a Mary Kahlenberg, que nos deixou no dia 27 de outubro, uma apaixonada pelos texteis e pesquisadora incansavel. Sua coleção, organizada com a colaboração de seu marido o historiador Robert Coffland, deu origem ao TAI Gallery/Textile Arts Incorporated em Santa Fé, no Novo México. Escreveu varios livros indispensaveis para os amantes da arte textil, sendo o ultimo "Five Centuries of Indonesian Textiles", definitivo no tema. Minha admiração por ela é imensa, pela generosidade com que dividiu seu conhecimento e pela sabedoria e curiosidade incansavel como pesquisadora. Sua vida nesse planeta foi dedicada a mostrar o melhor momento do homem como criatura e criador, e só podemos ser enormemente gratos por ela ter vivido entre nós. Escrevi um post sobre Mary Kahlenberg (11/01/2011): "Mary Kahlenberg e o Reino dos Texteis de Java", deem uma olhadinha, esta logo abaixo. *ver também: - "Mata Hari e o batik javanes" de 27/08/2007 e "M'batik - Arte Textil em Yogyakarta" de 24/06/2008. DICA: Quem gosta de cinema deve obrigatoriamente assistir aos filmes dessa deusa, verdadeira esfinge do cinema, que é Greta Garbo. Como fã gosto de todos, mas indico os classicos que se encontram restaurados e editados em DVD: "Grande Hotel"(1932), "Rainha Cristina" (1933), "A Dama das Camélias"(1936), "Anna Karenina" (1935), "Ninotchka"(1939) e claro "Mata Hari"(1932). Recentemente assisti na tv a cabo, perdido em uma madrugada qualquer, a versão de 1934 de "Véu Pintado" (que ganhou nova versão recente com Naomi Watts no papel da anti-heroina de Sommerset Maugham) e fiquei simplesmente nocauteado com a beleza e talento dessa mulher. Nelson Rodrigues costumava dizer: "...Greta Garbo é a unica atriz de cinema que ja existiu..." Abandonou o cinema, cujo ambiente ela desprezava, muito cedo e se tornou um mistério indecifravel, solitaria e inacessivel.  Xale de palha de seda com pigmento em ouro metalico inspirado no perada de Java / Celso Lima/ 2007.
Escrito por Celso Lima às 16h12
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SOMENTE PARA SEUS OLHOS

Óptico de Victor Vassarely (1959). Tramar a ilusão dos sentidos é uma das prerrogativas da arte em todos os seus suportes, da poesia ao cinema, e ao artista é permitido todos os truques e intenções. Mas nem sempre é necessário recorrer à magica, e foi um grupo de artistas que na metade do século XX utilizou unicamente a linha gráfica para criar e recriar em moto continuo matemático a mais intrigante arte ilusória espacial, hoje um movimento estético: a optical art. Dois desses artistas me fascinam, e é sobre eles que escrevo nesse alucinógeno post: Victor Vasarely, que inventou toda essa luxuriante paisagem geométrica, e Bridget Riley, que abraçou a ilusão optica em seu trabalho estupendo. Victor Vasarely.
Victor Vasarely nasceu em Pécs, na Hungria, em 09 de abril de 1908, e foi em seus estudos da juventude em Budapeste que entrou em contato com a efervescencia do modernismo soviético. As experiencias estéticas que aconteceram na Russia do inicio do século XX foram decisivas para os primeiros passos do modernismo europeu, mas foi com os mestres da Bauhaus alemã, como Paul Klee, Kandinsky e Josef Albers, que Vasarely adquiriu seu mapa criativo: a análise e evolução de linhas geométricas puras no desenho calculado. Eram das salas de aula da Bauhaus que ecoavam as diretrizes do futuro, com uma definição do processo criativo como algo físico decifrado, a apreensão da intenção no ato e as sensações disso ao olhar espectante. 
"Delocta" / 1979 / serigrafia / Victor Vasarely. Em 1930 Vasarely se muda para Paris, aonde viverá até o fim de sua vida. Durante a década de 30 trabalhou como designer gráfico para a publicidade. Seu trabalho rapidamente migrou para a geometria abstrata construtivista. O seu fascinio pela linha, via as teorias de desenho analitico da Bauhaus, o levou a desenvolver trabalhos que compreendiam apenas os movimentos e evoluções tridimensionais lineares, com sensações de densidade e profundidade, sendo que no inicio optou por trabalhar apenas em preto e branco, uma pureza formal grafica. Com a introdução das cores Vasarely começa então a construção de uma obra espacial, dando total vazão às suas paixões cósmicas, suas explosões estelares e geometrias que iludem na impressão de massas em expansão. 
"Pokol" / 1973 / Victor Vasarely As descobertas cientificas espaciais da segunda metade do século XX foram essenciais na criação e execução de suas enormes peças interativas. Vasarely possuia enorme admiração pelos conhecimentos da fisica e biologia, com seus pulsares luminosos e células em mutações. Foi um dos pioneiros na concepção de instalações com transparencias e projeções de cores, criando labirintos geométricos penetraveis. Seus trabalhos e estudos são a espinha dorsal da optical art, um movimento artistico que tomaria força durante os anos 60 e 70, mudando para sempre o design moderno contemporaneo. Victor Vasarely faleceu em Paris, em 15 de março de 1997. Bridget Riley
Bridget Louise Riley nasceu em Londres no dia 24 de abril de 1931. Sua formação artistica começou no Goldsmiths College, aonde ingressou em 1949 e recebeu uma educação artistica classica. Em 1952 iniciou seus estudos de arte moderna no Royal College of Art, até 1955, e foi ali que Bridget tomou contato com artistas e teorias estruturais de desenho oriundas da extinta Bauhaus alemã, tais como Paul Klee, Wassily Kandinsky, Josef Albers e Laszlo Moholy-Nagy. Mas foi a arte de Victor Vasarely, que durante os anos 40 e 50, produzindo um trabalho abstrato espacial fundara a optical art (tambem influenciado pelos ventos futuristas da Bauhaus), que capturou todo o interesse plastico de Riley. Bridget Riley
A partir dos anos 60 Bridget começa sua extensa produção de opticals em preto e branco, linhas e formas em distorções espaciais, ondulações e trépidos labirinticos que se tornariam a marca de seu trabalho. A proposta da op art era a interação do espectador com a obra artistica através de sensações fisicas, provocadas pelas ilusões vertiginosas de linhas e cores. Os anos 60 traziam novos experimentos, desde comportamentais, como uma vivencia de extases no sexo e os transes orientais, como também quimicos, com o uso de drogas alucinógenas. As narrativas de Aldous Huxley sobre as alterações sensoriais via transe químico (com a mescalina e o LSD, por exemplo) impressionaram Bridget Riley e influenciaram algumas de suas obras. Durante sua vida Riley tem recebido variadas impressões e influencias, desde a Bauhaus até a arte egipcia, como os hieroglifos e a pintura (sua obra "Shadow Play" de 1990 é uma belissima tradução dos trapézios egipcios), e seu trabalho, ao lado de Victor Vasarely, se tornou o acervo difinitivo da usina de ilusões da optical art.  "Loss" / 1964 (a esquerda) - "Blaze 1" / 1962 (a direita) / Bridget Riley As linhas e padrões em evolução da op art definiram plasticamente idéias e conceitos surgidos no inicio do século XX, em movimentos modernistas como o construtivismo e futurismo russos, até as teorias analíticas de desenho da Bauhaus alemã. Influenciou toda a arte cinética, desde a fotografia até o cinema, e foi combustivel vital para a pop art, além de estar sempre presente na moda e na arte publicitária. Ainda é a imagem de um futuro mítico, de conquistas fisicas e espaciais, aonde nos tornaremos verdadeiros Jetsons (quem tem mais de 40 anos se lembra do tunel em espirais ópticas por onde os cientistas Doug Phillips e Tony Newman entravam em suas viagens pelo tempo na série norte-americana dos anos 60 "O Tunel do Tempo", de Irwin Allen.). Essa talvez seja afinal sua grande ilusão. 
Op art em movimento.
Escrito por Celso Lima às 17h10
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VOCÊS QUEREM BANANAS? 
Eram duas mudas e foram plantadas num canto ensolarado no fundo do quintal, defronte da goiabeira. Alimentavamos grandes esperanças em sua floração e frutificação, e no espaço de um ano as duas pequenas bananeiras ("musa") se tornaram frondosas, lindas mesmo, com suas enormes folhas rasgadas pelo vento... Que coisa linda é uma bananeira!... Nasci e cresci no interior, e na casa de minha avó tinhamos arvores generosas, duas mangueiras majestosas e a jabuticabeira (que alias, quando floria e frutificava, pontual todos os anos, deixava a todos, adultos e crianças, deslumbrados com tal espetáculo!...), mas não havia bananeiras. E então, numa manhã de janeiro, estavamos lá, mudos e pasmos em torno da nossa bela bananeira, hipnotizados por aquele objeto rutilo, espiga aerodinamica com ares alienigenas, florescendo em nosso quintal... Com orgulho olhavamos sua flor-objeto-arte, como um delirio de Ligia Clark ou Louise Bourgeois. Que estupenda é a flor da bananeira, esse enorme coração, uma ogiva sanguinea com traços pré-historicos... E assim nossa bananeira floriu, e durante meses seu cacho cresceu e madurou, decorando nosso quintal e dando-lhe ares de paisagem jurassica. Afinal em julho o colhemos, e meu Deus, que maravilha de bananas, que delícia de bananas!!! 
A flor da minha bananeira e suas naturais consequencias (que renderam compotas, bolos e horas deliciosas saboreando-as). A banana, riquissima em proteinas e sais minerais, é o que antigamente se chamava de "um santo remédio", pois alem de deliciosa é boa para varios males, desde hipertensão até anemia, e possivelmente deve dar jeito também em mal de amor, ja que se esquece de tudo saboreando uma guloseima supimpa como ela! Mas também é objeto de arte, logotipo pronto da natureza em aventuras exóticas, da qual é simbolo extravagante, e tem sido tema constante na arte e na estamparia, desde as pinturas de Rugendas até a banana pop de Andy Warhol, e nos dias de hoje afinal digitalizada. Na moda parece que é tendencia, já que a grife italiana Prada lançou em julho deste ano belissima padronagem de bananas. 
O diabo veste mesmo Prada: Anna Wintour veste o belo padrão de bananas da grife italiana/ 2011. Para nós brasileiros ela é um simbolo nacional, apesar de originaria do sudeste asiático, e sua figura esta presente em nosso imaginario como selo nativo. Aproveito que o assunto é bananas e moda para também falar sobre nossa grande embaixatriz das bananas, nosso icone fashion-musical que é Carmen Miranda, que incendiou as Américas durante a primeira metade do século XX, com sua voz, trejeitos e balangandãs. 
Estampa "Cachos de Bananas" de Bruno Dellani para a "Água de Coco"/2003. Nascida em 1909, podia ser portuguesa de nascença, mas com certeza foi desmamada a bananas brasileirissimas, ja que de europeia ela não tinha nada, nadinha!! Era carioca da gema, nossa "brazilian bombshell", esse happening alucinado dos trópicos brasileiros. Cantando a malandragem e o charme do Rio de Janeiro dos anos 30, Carmen criou um estilo inigualavel em sua interpretação e se tornou nossa então maior estrela, mas foi no technicolor de Hollywood que ela se tornou um mito mundial. O Brasil de Carmen Miranda era uma fantasia divertida e mirabolante de confetes coloridos, coqueiros de celofane e baianas estilizadas em rendas e lamê, em confronto com a desonestidade e preguiça antropológicas de Macunaíma. Vitimada pela solidão e pelo descaso, que por ciume e inveja lhe devotamos, inconformados por ela haver levado sua beleza, talento e alegria para outros além de nós brasileiros, morreu ainda jovem, praticamente no palco (Carmen teve um infarto fulminante chegando em sua casa em Los Angeles, em 05 de agosto de 1955, após se apresentar no show noturno de tv de Jimmy Durante, aonde sentiu-se mal enquanto dançava, já um samba triste, e essas imagens até hoje arrancam lágrimas em quem as vê...). Quando seu corpo chegou ao Brasil, levando as ruas do Rio de Janeiro milhares de fãs enlutados e causando imensa comoção publica, seu amigo Ari Barroso lamentava em seu programa de radio que o Brasil lhe dava na morte o que devia ter lhe dado em vida: a aclamação. 
Nossa grande "pequena notável" Carmen Miranda em foto clássica. No entanto até hoje é Carmen Miranda nosso melhor 3x4 no exterior, com certeza nossa mais talentosa e sofisticada embaixatriz. Quanto mais ouço Carmen, mais me encanta sua frescura e alegria, de uma graça malandra e gaiata, modernissima!! Diva. 
Estampa "Bananas" pintada a mão sobre lona de algodão/ Celso Lima/ 1997. Nota: O titulo deste post é uma homenagem ao nosso saudoso Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que em seus programas de auditório elegantemente oferecia ao publico diversos itens de secos & molhados, com preferencia especial pelas frutas, entre elas as bananas, com esse bordão: "...voces querem...? Dica: Para quem se interessar pela nossa maravilhosa Carmen Miranda nada melhor que sua biografia escrita pelo talentosissimo Rui Castro: "Carmen". Um livro imenso, pela vida que conta e pelo riquissimo texto. Editado pela Companhia das Letras, "Carmen" nos traz uma estrela de uma época em que o Brasil era promessa, charmosa e divertida.
Escrito por Celso Lima às 19h52
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CURSOS SESC POMPÉIA 
Plotagens das plantas de rapport das estampas criadas no curso de Design de Estampas p/ Padronagens do primeiro semestre 2011. E nesse segundo semestre vamos novamente trabalhar o desenho de padronagem nas oficinas do SESC Pompéia, e com certeza repetiremos o sucesso que foram as duas turmas do primeiro semestre (o pessoal trabalhou muito, com resultados que me deixaram muito feliz). Serão duas turmas, a procura pelo curso foi muito grande, então devem estar todos muito animados e com muito folego. Além do desenho de padronagem, estaremos também numa viagem no tempo e no espaço com os processos de estamparia por fio tinto na oficina de técnicas orientais de tinturaria, com atenção especial para os acervos de badhnu da Índia e do shibori do Japão. Deixo para voces que visitam esse espaço algumas imagens de trabalhos dos alunos do curso de desenho de estampa para padronagens do primeiro semestre. 
Estampas executadas em batik javanes do curso Design de Estampas p/ Padronagens primeiro semstre 2011/ Aluna Maira Pinheiro (a esquerda) e Ana Maria Rodrigues (a direita).
PARA INFORMAÇÕES SOBRE CURSOS NO ATELIE O FONE É: (11) 38755365
Escrito por Celso Lima às 09h59
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HENNA TINTUREIRA NO ATLAS MARROQUINO Cordilheira Atlas A cordilheira Atlas, no norte da África, é com certeza uma das mais belas paisagens de montanhas do mundo, se esparramando por tres paises africanos: o Marrocos, a Argélia e a Tunisia. Um deserto rochoso elevado aos céus, em alturas frias e secas, e é nessa paisagem, na região do Médio Atlas no Marrocos, que a população berbere Nadif executa um dos mais belos processos de estampa tintureira do mundo: o tingimento de lã com henna. 
Peça nadif em lã tingida com henna / Marrocos. A henna ("lawsonia inermis") é um arbusto nativo e também cultivado em regiões quentes semi-desérticas, tropicais e sub-tropicais, e de suas cascas e folhas secas se extrai o pigmento protéico hennotanico ácido, que varios povos da África e Ásia utilizam para tatuar a pele e tingir o cabelo. No entanto, os berberes nadif usam a henna também para tingir a lã, com excelentes resultados tintureiros. "Lawsonia inermis"
O processo utilizado é através de compressas embebidas no suco das folhas (um caldo preparado durante dias com redução e fermentação ácida), que são aplicadas em areas escolhidas sobre as peças de lã tecida. As compressas são mantidas por 2 a 3 dias em processo de impregnação das fibras, resultando em desenhos e areas tingidas com diferentes tons de castanhos e marrons avermelhados. Também meadas de fios de lã são tinturadas com henna em imersão no caldo, para serem utilizados em bordados. 
Peças nadif (mantas) em lã tingidas com henna / Marrocos Como em outros paises aonde a henna é aplicada como pigmento tintório, no Marrocos seu uso é tido como purificador, e os povos berberes possuem a crença de que a henna traga boa sorte e fertilidade, sendo que as peças tinturadas com ela são geralmente véus de noivas e mantas de bebês. É com certeza um dos mais belos trabalhos sobre texteis que já vi, com suas malhas gráficas em marrom sobre lã branca, protegendo e aquecendo a vida nas altas paisagens frias e áridas do belo Atlas marroquino. 
Véu de noiva em tritik com tingimento de henna/Celso Lima/2011. DICA: Para quem quiser contemplar a austera paisagem do Atlas eu indico o belissimo filme "Des Hommes et des Dieux" ("Homens e Deuses"), de 2010, do diretor frances Xavier Beauvois. Conta o terrivel episódio do massacre de monges cisterciences franceses em Tibhirine, na Argélia em 1996, durante a guerra civil. Na ex-colonia, os monges franceses, vivendo em seu pequeno mosteiro com trabalho de subsistencia e assistencia aos moradores do vilarejo arabe em redor, são confrontados com o ódio e a brutalidade cega da guerrilha argelina, em dantesca dança da morte. Mas é a fé na vida que de certa forma iguala e aproxima os monges dos moradores da aldeia muçulmana, em especial dos anciãos, em suas conversas sobre o mundo e suas perdições. "Des Hommes et des Dieux" conta uma estória de escolha e tragédia, nesses nossos sombrios e tristes tempos, aonde consciencias podem ainda brilhar, mesmo que de maneira breve e intermitente. 
Cena do filme "Des Hommes et des Dieux".
Escrito por Celso Lima às 17h41
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ISABEL A mãe, voluntariosa, não se impressionou com o bem arrumado cesto que providenciei para a chegada dos seus rebentos. Foi no sofa da sala, pelas minhas mãos, que ela nasceu, em uma noite fria de julho, há 16 anos atras. Da mãe teckel caramelo herdou a cor, com os pelos esfumados em pretos puxados do pai, um negão teckel muito invocado. Mas Isabel nasceu com os pelos longos, uma variação belissima de sua raça, era uma bolinha de pelos, tão peluda que suas patinhas não lhe davam firmeza, escorregava nos seus primeiros passos caninos, tive que apara-los para que saisse a andar e encantar nossas vidas. E seus olhos, meu Deus, seus olhos redondos e castanhos com o olhar mais terno que recebi na vida. Desde o inicio assumiu em nossa matilha sua função de guardiã e cuidadora, com que coragem defendia-nos de intrusos e invasores, e como cuidou de todos nós, sempre tensa e preocupada, a vigiar meus passos, minhas alegrias e principalmente minhas magoas e tristezas, que ela consolava como podia criatura tão pequenina. Nunca se convenceu de sua importancia em nossas vidas e do amor e gratidão que sentiamos por ela. Insegura, sempre a agradar e festejar, transformou nosso mundo em uma festa permanente. Dedicada, quando seus filhotes nasceram, foi a mãe mais extremosa desse mundo, a criançada estava sempre limpinha e bem alimentada. Era comovente ver, quando sua mãe envelheceu, como acompanhava os passos vagarosos dela, sempre na sua escolta amorosa. Se tornou ela mesma uma velhinha simpática e sempre muito bonita, uma Deneuve canina. Dizem que os cães são um presente de Deus aos homens, uma prova de seu amor. Ontem, nesse frio de julho, meu presente me foi tomado, e também em minhas mãos ela se foi. A morte de um animal é como a de uma criança, uma deserção solitária, um abandono trágico... Sua filha tem buscado por ela, ainda no seu rastro Chica acha que, quem sabe, de repente uma surpresa, e nossa Isabel de volta... Mas eu sei... Nunca mais, meu anjo, nunca mais o seu olhar amoroso, a sua festa que me fazia tão importante, nunca mais sua ternura quente, nunca mais... Só a gente aqui, nesse beco escuro da saudade. POST SCRIPTUM: 13/10/2011 - Fazem mais de tres meses que Zuquinha se foi, e hoje me bateu uma saudade imensa dela, seu cheirinho e sua alegria... Há muitos anos atras li um artigo do Carlos Heitor Cony chamado "Mila", em que ele falava sobre sua cadela que havia partido, um texto tão dolorido e sincero vindo de um homem que enfrentou tantas batalhas nessa vida. Em varias outras oportunidades Cony escreveu sobre Mila, como ele dizia "...o grande amor de sua vida...", e sempre me enterneceu o sentimento enorme que ele nutria por essa cadelinha. Na época me identifiquei muito com ele, pois também comigo vivia uma criatura extraordinária, Kalu, uma cachorrinha teckel que, em janeiro de 1993, veio reinar em minha vida. Eu a perdi em setembro de 2008, e durante dias fiquei prostrado, sem vontade de nada nem ninguém, pois ela levou consigo para sempre um grande pedaço do meu coração... Como eu ja escrevia esse blog, se tornou obrigatório então escrever sobre ela um pequeno texto, e homenagea-la como podia, e foi quando me lembrei de Cony e o compreendi completamente, como são grandes os seres que amam incondicionalmente. Hoje despertei pensando em Isabel, e com ela sua mãe, Kalu, minhas saudades doloridas, e estou aqui tentando tanto acreditar que talvez estejam as duas me esperando, junto a todos que amei e perdi, como minha mãe, que tão jovem se foi. Saudade é isso, essa impossibilidade total.
Escrito por Celso Lima às 18h10
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L'UOMO ITALIANO...EMILIO PUCCI Emilio Pucci As ultimas modelos subiam apressadas a escadaria que levava ao atelier. Traziam consigo o calor do sol escaldante que castigava Roma nesse verão de 1966. No grande salão de provas, em meio a ondas multicoloridas, em verdadeiro prisma lisérgico, se destaca a figura de um homem elegantemente trajado em terno escuro que, nervosamente, faz os últimos retoques em uma peça que a manequim, uma beldade romana, veste com displicência. Em uma das janelas em arcos do salão, outra jovem modelo se debruça sobre os telhados de Roma, alisando carinhosamente a pequena cabeça da gata de pelos dourados que dormita ao sol, enrodilhada no batente da janela. Abrindo seus olhos vítreos, a gata olha com desconfiança a jovem. Seu dono deu a coleção de roupas e ao perfume que criara seu nome, Vivara. Distraindo-se da gata, a jovem mulher olha para o horizonte das colinas, sem prever que a erupção de cores e geometrias que veste irá se tornar um símbolo do seu tempo, a digital psicodélica dos anos 60: a estampa Pucci.  As panteras de Pucci vestem suas estampas pelos telhados de Firenze/ coleção 1967.
Nasceu marques Emilio PucciBarsento em 20 de novembro de 1914, em Napoles. Filho de uma família da aristocracia florentina, Emilio teve uma infância rica e mimada e cresceu em meio aos valores duvidosos do fascismo italiano de Mussolini, que aprendeu e apreciou. Jovem esportista, já aos 12 anos se sentiu atraído pelo esqui, e a esse esporte se dedicou de corpo e alma, se tornando excelente esquiador. Formou-se em Ciencias Politicas em 1937, e aos 24 anos se alistou no exército italiano, na Força Aerea, atuando como piloto de bombardeio durante a Segunda Guerra. Foi intimo da família Mussolini, o que lhe custou um breve exilio na Suiça após o fim da guerra.  Emilio Pucci ensaia sua modelo para foto estampada.
E foi na Suiça, em 1947, que a pedido da fotografa de moda Toni Frissell (1907-1988), desenhou uma coleção de roupas de esqui para um ensaio da Harper’sBazaar (ele já havia desenhado outras peças esportivas, inclusive o uniforme da equipe de esqui do Reed College de Oregon, aonde estudara). As roupas encantaram Diana Vreeland (1906-1989), então editora da Harper’s, pelo design elegante e principalmente pelos tecidos elásticos inusitados utilizados por Pucci. Foi Vreeland uma das grandes incentivadoras de Pucci na moda norte-americana. Diana Vreeland.
Os conhecimentos de Pucci sobre os tecidos sintéticos vinham de sua experiência com os materiais utilizados pela aeronáutica. Não apenas Pucci mas outros estilistas, como Chanel, se aproveitaram das inovações dos materiais têxteis introduzidos durante a Segunda Guerra pela indústria bélica. Apaixonado pelos fios sintéticos, Pucci criou vários tecidos, entre eles o jérsei, e aplicou elasticidade a seda, criando vários modelos em seda stretch. Suas principais matérias primas seriam sempre os fios sintéticos e a seda. No final dos anos 40, no austero pós-guerra, introduziu cores então impensáveis na moda europeia, como magenta, limão, laranja e turquesa, entre outras. "O Principe das Estampas". Voltando da Suiça, Emilio fixou residência na ilha de Capri, e em 1949 foi ali que criou um conceito novo de roupa esportiva, com uma coleção de roupas de praia que podiam ser usadas cotidianamente em qualquer ambiente, além do esporte (é dessa coleção uma peça que se tornaria presente em todo guarda-roupa feminino: a calça capri). Em 1950 ele abandonou a carreira militar e abriu em Capri sua casa de alta costura. A mulher moderna que emergia do pós-guerra pedia trajes mais confortáveis e práticos, uma opção ao luxuoso new look de Christian Dior que dominaria a moda da próxima década. No inicio dos anos 50 o desenho de Pucci oferecia praticidade e elegância, e apesar de ainda seguir os padrões do new look, já propunha uma cintura menos marcada e mais sugerida. Foi no final dessa década, na ressaca do new look de Dior, que as ousadias libertadoras de estilo esportivo de Pucci encontraram seu espaço na moda de alta costura. 
Estampa "Psicodele" inspirada em Pucci para Conceito Firma Casa / Celso Lima 2007. Durante os anos de 1960 a 1965 Pucci se dedicou ao estudo dos movimentos estéticos do final oitocentista, principalmente o art nouveau e o artdeco, que forneceram a ele uma munição fantástica para suas estampas revolucionarias na usinagem da op art. É muito interessante a sincronia da criação de Pucci e o surgimento da arte óptica nos anos 60, um exemplo da grande contemporaneidade de seu processo criativo. Sua coleção de 1966, chamada “Vivara”, quando as lisérgicas estampas geométricas multicoloridas (mas também em elegantes monocromias) que iriam vestir as décadas de 60 e 70, surgem pela primeira vez em conjunto, foi de impacto absoluto na história da moda. As estampas Pucci vestiram desde a juventude agitada da contra-cultura até as panteras do jet-set internacional, de Hollywood a Casa Branca (Jacqueline Kennedy e Marilyn Monroe foram duas grandes clientes da casa Pucci), e pelas ruas de Paris, em roupas e objetos. Hoje são os símbolos elegantes e divertidos da década mais efervescente do século XX, os anos 60. Pucci veste Marilyn Monroe.
Emilio Pucci transformou a ilha de Capri em resort de luxo internacional. Com a baronesa Cristina Nannini, com quem se casou em 1959, eram festejados no mundo fashion das celebridades. Suas criações transformaram o modo de vestir, com uma alternativa possível entre o traje formal e o esportivo. Suas linhas retas e andróginas influenciam a moda até hoje, enquanto suas estampas se tornaram absolutamente clássicas. Ele morreu em 29 de novembro de 1992, um mago das formas e das cores em alucinadas geometrias.  Verushka é devorada pela geometria alucinada de Pucci. Curiosidades sobre Pucci: - Em 1971 desenhou o emblema da missão Apolo 15 para a Nasa. - Aos 17 anos foi membro da equipe olímpica italiana de esqui de 1932. - Marilyn Monroe foi sepultada com um de seus vestidos. - Suas famosas estampas sinuosas foram inspiradas, segundo ele, pelos reflexos da luz do sol sobre as aguas do mar da ilha de Capri. - Ajudou a filha de Mussolini, Edda Ciano, de quem era amigo intimo, a fugir com seu marido da Italia quando o regime fascista italiano ruiu. Edda foi para a Suiça levando consigo importantes documentos do regime fascista. - Iniciou sua carreira assinando apenas “Emilio”, a pedido de sua família, que temia ter seu nome envolvido em possível fiasco na carreira mundana do artista. - A grife da Maison Pucci é hoje uma das mais caras do mundo, sendo para poucos, pouquíssimos.  Dicas sobre Pucci: - A editora de BenediktTashen nos presenteia com mais uma jóia: é da Taschen o livro “Pucci”, com mais de 400 paginas em edição luxuosíssima (as capas são cobertas por tecidos Pucci, em 50 variações, coisa de louco mesmo!!!). - Temos também nossa edição da Cosac &Naify, “Emilio Pucci”, vale conferir.
Escrito por Celso Lima às 18h28
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OURO AZUL Do grego “indikon”, a palavra índigo significa “pó da India”, de onde era originário o índigo utilizado pelos gregos a partir de Xa.C., também conhecido pelos egípcios e muitos outros povos. A extração e utilização do pigmento índigo remonta a muitos séculos, no alvorecer da cultura humana. Conhecido em varias regiões, o índigo clássico e perene é extraído da fermentação das folhas dos arbustos do gênero “indigofera” (são mais de 200 variedades conhecidas e encontradas na Africa, Asia, Américas, Europa e Australia). Já conhecido pelos indianos em 5.000a.C, foram os chineses, porém, os primeiros a aplicarem o pigmento em tinturaria com eficiencia (com a utilização de mordencia alcalina), já em 3.000a.C. Na América foi batizado de anil, do sânscrito nili e do árabe an-nil, e no Brasil a “indigofera sp”, da família das fabaceas, é popular como “anileira” (dai a palavra “anilina” usada para designar corantes de qualquer cromia). . Indigofera sp.
. Não haveria espaço para contar toda a história desse belo azul, desde o pó de giz do índigo egípcio, usado para faianças e maquiagens (curiosamente os egípcios pouco utilizaram o índigo na tinturaria, apesar de conhecerem o pigmento desde o Antigo Império)*, até os estudos do alemão Baeyer, que o sintetizou no final do século XIX. Sua obtenção é reportada em vasta literatura, das tabuletas cuneiformes mesopotâmicas aos escritos romanos sobre tinturaria, que trazem também os processos de utilização conjunta com a purpura fenícia (“murex”)* na obtenção da purpura imperial, além das inúmeras citações de Marco Polo no século XIII, e centenas de tratados químicos escritos sobre ele até os dias de hoje. . 
Arashi-shibori em caldo de tinturaria em índigo/ Celso Lima 2010. . Na Europa medieval surgiu o pastel bretão, azul extraído de outra planta, a “isatis tinctoria”, que tingia por processo direto de saturação, diferentemente do indigofera, que tinge por oxidação, com qualidades como solidez e resistência, presentes em outros pigmentos óxidos como a purpura fenícia e os óxidos metálicos. A tinturaria por oxidação do indigofera, cujo pigmento azul só surge na fermentação e degradação de suas folhas, é de fato magica, e os varais dos tintos são degradés de azuis, sendo na India e na Africa um espetáculo a parte. A utilização da mordencia alcalina para fixação em fibras celulósicas, como algodão e linho (o resultado do índigo em fios protéicos como seda e lã é de baixa qualidade e pouco indicado), foi importante para defini-lo, já na Antiguidade, como um tinto de grande durabilidade e resistência.
. 
Painel “Butas e Tigres” / Batik javanês e ori-nui shibori sobre shantung de seda/ Celso Lima 2010. . Na Africa o indigofera divide espaço com o “lonchocarpus cyanescens”, um tipo de cardo abundante na costa atlântica. Em Burkina-Faso e na Nigéria os azuis profundos dos adires yorubas e mossis são conseguidos pela tinturaria em processo direto do índigo “lonchocarpus”. Nesses países, assim como no Benin e Gana, além de outros da Africa Ocidental, os caldos de tingimentos seguem a formula da tinturaria marroquina em salmoura e os resultados são belíssimos, com excelente fixação por mordencia. Uma curiosa estória africana envolve os tuaregs, povo da região do Saara (Argélia, Mali, Niger e Chade). Os tuaregs possuem excelente tinturaria do algodão em índigo, e as vestes azuis se tornaram um costume clássico do povo berbere. No entanto os viajantes tuaregs, nômades do deserto, se vestem com tecidos tingidos especialmente para eles, sem mordencia, sendo que, dessa forma, o azul do tingimento passe para a pele, impregnando e tingindo, dando-lhe assim uma cor azulada. Por isso os nômades tuaregs são conhecidos como “homens azuis”.
. Um homem azul.
. Foi em 1880 que o químico alemão Johann Friedrich Wilhelm Adolf von Baeyer anunciou a síntese do índigo em corante direto alcalino, um estudo químico de fusão em nitrobenzeno aldeído e acetona com hidróxido sódio preparado, revolucionando a indústria têxtil, para a qual ele era destinado. Atualmente muito se tem falado sobre a viabilidade da indústria dos pigmentos frente as questões ambientais. No caso do índigo, se ganharia em um incentivo maior ao cultivo e utilização do pigmento natural em detrimento do sintético. As qualidades do pigmento recomendam amplamente sua utilização, e os ganhos em termos ambientais seriam reais. As dificuldades se encontram em alternativas para outras cromias, com a manutenção das qualidades e custos exigidos a um pigmento de uso em grande escala, e que a indústria de sintéticos atualmente oferece, mas com prejuízos ambientais enormes, já que os seus dejetos são altamente poluentes. No entanto, o índigo nos presenteia com azuis profundos, belos e puros, azuis da Terra, azuis do céu. . *ver também os posts: - “Tinturaria/de Tebas a Bauhaus” de 01/02/2008. - “A Revolta do Indigo e a Marcha do Sal” de 25/04/2008. - “A Cor de um Imperio” de 13/05/2009. . dicas e notas: . - O AMOR SEGUNDO LEONILSON
Leonilson.
. Leonilson se fez homem adulto no final dos anos 70, quando ao amor já estava engatilhada uma armadilha mortal. Desde a primeira vez que ouvi sobre ele e vi seus trabalhos, eram as grandes magoas e pequenos triunfos do amor o seu tema. No inicio dos anos 80, saindo da faculdade de artes plásticas na mesma FAAP por onde ele também andara anos antes, fui encarar a vida e o trabalho em um mundo já assombrado, com a paixão e o amor sensual já na canga do sinistro. Mas foi por esse mundo cinza que Leonilson, valente intrépido, enveredou a amar, e fez de sua paixão uma das mais belas crônicas do amor na arte do século XX. Suas pinturas, com as impressões intimistas de seu cotidiano, e seus bordados (em especial seus bordados, meu Deus!...) para sempre me apertam o coração. Num mundo como o de hoje, aonde quase todos vivem no desejo das coisas impostas pelo senhor medo, sem o apanágio do possível amor virando a esquina, caminhar pelo universo apaixonado de Leonilson é retorno a um sentir distante, são tantos abraços, beijos, ir e vir, abandono e saudade, tudo aquilo que o amor promete e cumpre. Não perca essa experiência inspiradora que é o trabalho de José Leonilson Bezerra Dias (1957-1993), na mostra “Sob o Peso dos meus Amores”, no Itau Cultural da Avenida Paulista, até esse domingo dia 29 de maio. . 
Leonilson borda o minimalismo pessoal em “Ninguém” (a esquerda) e pinta “Os Pensamentos do Coração” na lona (a direita). . GRACE KELLY, OU QUANDO AS DEUSAS CAMINHAVAM SOBRE A TERRA . Ela foi uma das grandes do Olimpo de Hollywood, quando o cinema norte-americano oferecia ao mundo suas deusas de celuloide. Grace Kelly possuía uma classe meio malandra, quase gaiata, que a tornava ao mesmo tempo divina e profana, e com certeza foi o diretor inglês Alfred Hitchcock (meu diretor favorito) quem tirou o melhor proveito disso e nos deu a mais deliciosa versão dela. Elegantissima, fashion e dona de um rosto perfeito (único pareo para Liz Taylor), me vem agora a mente seu close deslumbrante em “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, prestes a beijar o sortudo James Stewart. A FAAP traz essa interessante, chique e ligeiramente cafona exposição-fetiche.“Os Anos Grace Kelly”, com fotos, filmes e objetos da diva. Devo acrescentar que meu interesse por Grace é cinema mesmo, aonde ela brilha até hoje, mas é encantador observar como uma mundana como ela pode ensinar classe, beleza e glamour a toda a realeza europeia. Belíssima! É na FAAP até 10 de julho.

A beleza de Grace Kelly em retrato em preto e branco.
Escrito por Celso Lima às 16h27
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A ESTAMPA NO CANGAÇO 
Na pausa silenciosa, nada se ouve, nada se mexe. O matagal baixo e seco esconde sua vida do sol que esturrica e desbota. No entanto, entre a palha e a galharia, nota-se uma estranha floração. São pequenas margaridas, em azuis e amarelos, numa folhagem empoeirada e seca estriada de vermelho. Mas que estupenda miragem: o matagal se ergue em algodão caqui bordado, e a frente daquele exótico grupo, na caatinga morna, é Maria Bonita que emerge, colorida e estampada, morena em caqui e vermelho na perdição do cangaço. 
Lampião e Maria Bonita pelas lentes de Benjamin Abrahão Foi na cidade de Serra Talhada que, aos 21 anos de idade, em 1919, o jovem Virgulino Ferreira da Silva (04/06/1898-28/07/1938) se tornou procurado pela policia, ao vingar violentamente a morte do pai, assassinado em uma rixa de famílias. Fugido para a mata, começava ali a saga épica desse bandoleiro do cangaço, conhecido como Capitão Lampião, e seu bando. O cangaço já era um fenômeno antigo da caatinga nordestina, e suas praticas violentas eram de uso pecuniário e politico dos coronéis latifundiários. O primeiro cangaceiro teria surgido no final do século XVIII, o “Cabeleira”, cria de um influente coronel do recôncavo. Quando Lampião e seu bando passaram a assombrar e fascinar o sertão nordestino, o cangaço já era então antigo caso de policia e politica. A história e estórias do cangaço e das vidas de Lampiaõ e seu bando são de uma riqueza e extensão que não cabem em texto curto. Até hoje existem controvérsias sobre como entender e classificar as práticas do grupo e falar de Lampião, idolatrado no sertão, esse homem que foi abençoado por Padre Cicero (quando contratado por Artur Bernardes para combater a Coluna Prestes, em 1926) e instalou o terror entre os fazendeiros do latifúndio nordeste. Meu interesse por Lampião, porem, vai além da crônica policial, aonde o extenso currículo do bando esta detalhadamente descrito. Esse “rei do cangaço”, como era chamado, era também um esteta, e levou para a bandidagem da caatinga uma elegância e sofisticação até hoje admiradas.

Chapéu de couro: um símbolo de poder no cangaço, e embornal com peitoral customizado. . Com o rosto queimado pelo sol e emoldurado por um chapéu de couro em meia-lua, com a aba virada para cima e adornada por moedas e pedrarias aplicadas entre bordados, era como uma coroa. Sua aparição, em farda caqui cortada rente ao corpo em requintada alfaiataria, suas botas bordadas e seu pescoço envolvido pelo lenço de seda em meio aos vapores de perfumes franceses, causava nas pessoas profundo impacto, e Lampião rápido se tornou uma figura de nobreza para o povo do sertão. Vaidoso, impôs a todo o seu grupo o apreço e capricho pelas vestimentas e acessórios. A principio todo o grupo era formado por homens, e era famosa uma das primeiras perguntas que Lampião fazia aos que pretendiam ingressar no bando: “sabe costura?”. Todos costuravam e bordavam, em preciosa customização dos trajes copiados da farda das tropas federais (os “macacos”, como chamavam seus perseguidores), confeccionados no brim caqui do exercito (sempre roubado, assim como as armas). O caqui recebia então bordados em linha branca e aplique de rendas nos cantis e botas. A seda inglesa ou o tafetá francês dos lenços, cortados como os famosos quadrados “tabaqueiros”, eram quase sempre vermelhos, mas com o tempo passaram a ser feitos também com estampados, como florais e cashmere, e eram cuidadosamente presos ao pescoço por vários anéis de ouro ou prata. 
Bolsas e cantil com customizações em apliques e bordados.
Em 1930 Lampião conhece Maria Gomes de Oliveira (08/03/1911-28/07/1938), e resgatando-a de um casamento infeliz (“...eu vou ou você me leva?...”), a introduz na vida do cangaço. Cabocla bonita, de grandes olhos melancólicos e morenos, Maria Bonita se instala na vida de Lampião e a partir dai se desenrola o épico. Sabinas do cangaço, outras mulheres foram sequestradas e levadas para a vida na bandidagem da caatinga. Algumas eram brutalizadas e até mortas pelos companheiros, e nesse caldo de violência e romance, uma estória de ódio e amor merece destaque: Corisco e Dada.
Corisco com os cachorros Dourado e Jardineira.
Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco (10/08/1907-25/05/1940), era conhecido por sua beleza física, um rapaz atlético que usava longos cabelos (extremamente bem cuidados), e sua presença lhe rendeu dois apelidos: “príncipe”, pelo aspecto, e “diabo loiro”, pela violência. Corisco era desertor do exército e entrou para o bando de Lampião (que tinha por ele grande amizade) em 1926, se tornando o segundo em comando, até 1938, quando formou seu próprio bando. Em 1928, conhece Sérgia Ribeiro da Silva (25/04/1915-02/1994), que ele rapta e viola brutalmente. A relação inicial de Corisco e Dada é de ódio, predador e presa. É no cotidiano da caatinga que Dada passa a se afeiçoar a Corisco, que por ela havia se apaixonado perdidamente. Alfabetizado (assim como Lampião, que era inclusive dado a leituras), ensina Dada a ler, escrever e fazer contas, e juntos terão sete filhos, além de terem sido o único casal do cangaço a se casar na Igreja. É a essa mulher que a estética do cangaço deve seu glamour: eximia costureira e bordadeira, Dada aprimora a alfaiataria da farda, com pregas e cortes enviesados, desenhando o corpo e facilitando os movimentos pela mata. Seus bordados florais multicoloridos passam a enfeitar os chapéus, cantis, bolsas e botas. Os lenços ganham monogramas. Introduz as faixas bordadas para peitorais e o uso de moedas e pedrarias ganham um incremento com os bordados de miçangas. As camisas, antes apenas em caqui, passam a ser feitas em azuis também. As luvas, que usavam para se proteger dos espinhos, ganham apliques bordados. Todos os objetos possuíam alguma decoração, das panelas aos fuzis. Os cangaceiros se tornam autênticos fashionistas, e quase todo o trabalho de costuras e bordados eram feitos pelos homens. Uma famosa foto tirada por Benjamin Abrahão em 1936 mostra Lampião e Luis Pedro bordando e costurando com uma maquina Singer, em absoluta concentração, ja que os adornos também determinavam o posto ocupado na hierarquia do bando. 
Bolsa de lona customizada com apliques e bordados e vestimenta feminina. . Dada foi a única mulher cangaceira a pegar em armas. Corisco lhe ensinou todo o manejo de armas, e em 1939, quando ele teve as duas mãos metralhadas em um confronto com os “macacos”, Dada se tornou seu braço armado. Em 1940 Getulio Vargas anistiou os cangaceiros, e Corisco resolveu se entregar, mas antes disso foi morto em uma emboscada, e Dada ferida gravemente na perna, que teve que ser amputada. Morreu em Salvador em 1994, aclamada como um símbolo feminino do Nordeste. A morte de Corisco foi o fim do cangaço. 
Fragmento do painel “Calango” / batik javanês sobre cetim de seda / Celso Lima 2009. . Lampião e Maria Bonita tiveram três filhos: Expedita e os gêmeos Arlindo e Ananias, que foram criados por famílias amigas do bando. A união do casal era admirada por todos, dentro e fora da caatinga, mas uma das estórias mais tocantes a seu respeito era o amor que nutriam por seus cães. Seus companheiros na difícil vida da caatinga, os cães eram muito queridos pelos cangaceiros, que a eles muitas vezes deviam a vida. Lampião tinha um cão que adorava, “Dourado”, que usava uma coleira em ouro e pedrarias. Em varias fotos Dourado aparece aos pés de Lampião, que olha com devoção. Esse cão foi brutalmente morto pela volante em vingança contra seu dono. A mais bela foto de Maria Bonita a mostra com seus dois xodós: “Ligeiro” e “Guarani”. Ligeiro era seu grande amor e tombou aos pés de sua dona em Angicos, quando em 28 de julho de 1938, junto com Lampião, seu “rei”, ela foi degolada ainda viva pela volante do tenente João Bezerra, a mando do governo de Getulio Vargas, que considerava o cangaço uma macula criminosa para seu Estado Novo. Maria Bonita, guerreira do cangaço, rainha da caatinga.

Maria Bonita com seus dois xodós: “Ligeiro” e “Guarani” / foto Benjamin Abrahão. . DICAS:
. *Brincando com equilíbrios e formas, em labirintos de matemática paradoxal, o holandês MauritsCornelisEscher (1898-1972) nos leva ao seu mundo mágico anti-gravitacional, ilusões em geometrias e construções. A obra do artista gráfico holandês vem para o CCBB(que merece nossos parabéns tanto pelo aniversario de 10 anos quanto pela excelência de suas exposições, algo raro em nosso pais) e são 95 obras produzidas entre 1919 e 1960, em acervo bastante expressivo, além das fantásticas montagens cênicas do trabalho do artista. É imperdível, e o CCBB fica na rua Alvares Penteado, 112, no centro dessa nossa capital paulista, e a visita é possível até 17 de julho.

Aula de rapport por Escher em estamparia de pássaros e peixes. . *Os cinemas do mundo inteiro mostram a animação “Rio”, grande produção americana dirigida pelo talentoso brasileiro Carlos Saldanha. É uma grande homenagem a cidade do Rio de Janeiro, deslumbrante e autentica nessa divertidíssima animação (existem detalhes no filme que somente um brasileiro conseguiria traduzir). Apesar de evidenciar também nossa desinteligência, já que sim, nós deixamos que a nossa arara-azul afinal se extinguisse na natureza, o filme traz uma mensagem de esperança em seu excelente roteiro. É para todos!
Escrito por Celso Lima às 13h35
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AN ENGLISHMAN... WILLIAM MORRIS Capítulo 1  William Morris Imaginem os homens vivendo em harmonia de pensamentos e atitudes, executando tarefas que lhes proporcionem ao mesmo tempo prazer e utilidade, vivendo em belas e confortáveis casas, cercados por objetos confeccionados unicamente em desenhos úteis e estórias pessoais, sem custos para aqueles que os apreciem. Nesse mundo de intimidades cálidas e amizades sinceras, o homem será tão melhor quanto o que é bom o cerca e acolhe. Essa utopia do bem estar humano foi concebida no século XIX por um grande artista, o designer e escritor inglês William Morris, que na sua visão neo-romantica da sociedade inglesa e européia oitocentista, pretendia um ambiente cotidiano criado e produzido para a elevação espiritual e o prazer sensorial e estético, e que fosse acessível a todos sem custos elevados. No entanto, durante toda a sua vida ele viveu o contraditório trágico de criar objetos extremamente belos e de alto referencial artístico para a clientela habitual, a elite burguesa que ascendia por toda a Europa desde o inicio da Revolução Industrial, outro dos vários moinhos inimigos de Morris. . 
Poltrona ajustável com forração em tapeçaria com estampa “Bird”/ William Morris/ 1890 . William Morris nasceu em 24 de março de 1834 em Walthamstow, Essex, filho de uma rica família. Foi uma criança divertida, mas tranqüila, e interessada em desenho e pintura, assim como em contos e lendas bretãs e celtas. Aos dezenove anos entrou para o Exeter College de Oxford, aonde estudou arquitetura, arte e teologia. Ali em Oxford, conheceu o critico de arte e medievalista John Ruskin (1819-1900), que o influenciaria em seus propósitos estéticos e culturais para o resto de sua vida. Foi também na faculdade que um importante encontro aconteceu para Morris, pois ali conheceu outros quatro rapazes que seriam seus grandes amigos e colaboradores: Edward Burne-Jones (1833-1898), Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), Ford Madox Brown (1821-1893) e Philip Webb (1831-1915). Impressionado desde criança pela beleza da arte e arquitetura gótica da Inglaterra medieval, Morris se interessou vivamente pela figura e pensamento de Ruskin, que fomentaria nos cinco rapazes de Oxford suas idéias de transformação da sociedade pela arte, com um retorno aos conceitos de produção e consumo do cotidiano medieval, de pequenos grupos sociais satisfeitos pela artesania, a arte como oficio, levando Rossetti, Burne-Jones, William Hunt e John Millais, entre outros, a fundar a Irmandade Pré-Raphaelita, um grupo de artistas que se opunham a arte acadêmica inglesa, de influencia renascentista, e pregavam o retorno a uma arte plena de pureza e idealismo romântico do gótico medieval. . 
“Cray” / Impressão sobre algodão / William Morris/ 1884. . Deixando Oxford, Morris se estabelece trabalhando em um escritório de arquitetura em Londres, e logo entra em choque com os processos criativos de adequação da arquitetura a um processo de urbanização desenfreado exigido pelas demandas da sociedade industrial emergente da época. Influenciado pelos pré-rafaelistas, Morris lança as bases do que seria o movimento Arts & Crafts, fundando em 1861, junto com Rossetti, Burne-Jones, Madox Brown e Philip Webb, a firma “Morris, Marshall, Faulkner & Co.”, que se opunha a uma sociedade organizada em série, ordinária, com a arquitetura e a arte se tornando manufatura barata, e pregava um retorno a artesania dos ofícios do período gótico e proto-renascentista, artesãos e artistas. O Arts & Crafts foi um estopim para uma nova forma de pensar o design, tanto na concepção de produtos quanto na arquitetura. Ali se produziria um acervo estupendo de desenhos para tecidos, papéis de parede, vitrais e mobiliário. As criações de Morris para tecidos, claramente inspiradas pelo desenho medieval, recriavam o gótico como gráfico modernista em ricas estruturas de rapport (muitas vezes em magníficas duplas), e sua temática da natureza em florais e pássaros resultavam em estampas que vestiram o art-noveau europeu e até hoje são únicas, uma profusão voluptuosa de galhos, folhas e flores (todos os seus designs são comercializados hoje licenciados pela “Sanderson and Sons”, a partir das matrizes da “Morris and Company”). . 
“Tulip and Willow”/ Desenho em lápis e aquarela (a esquerda); Desenho em aquarela p/matriz (a direita) / William Morris/ 1873. . O movimento Arts & Crafts pretendia também uma socialização do design de objeto e arquitetônico, transformando o ambiente das pessoas. Essa postura levou Morris a se aprofundar no estudo da vida medieval e no exercício dos ofícios nesse período, gerando nele um sentimento de repulsa a sociedade vitoriana, fabril e capitalista, aumentando seu interesse pelos ideais socialistas que surgiam. Sua aproximação a Eleanor Marx e Engels culminou com o inicio do movimento socialista inglês, e em 1883 ele se filiou a Federação Democrática Social. Antes disso, em 1877, fruto de seu dissabor diante da destruição física das cidades inglesas pela febre industrial da construção, ele fundou a “Sociedade para Proteção de Prédios Antigos”. Seu trabalho nessa fundação de preservação histórica foi fundamental para a formação do “National Trust”. . 
“Kennet” / jacquard em seda e linho/ William Morris/ 1883.
Escrito por Celso Lima às 20h12
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AN ENGLISHMAN... WILLIAM MORRIS Capítulo 2 
. Nas artes e oficios, Morris teve grandes paixões, além da pintura e do design de estampas, e uma das principais foi a impressão tipográfica. Em janeiro de 1891 ele fundou a “Kelmscott Press” em Hammersmith, Londres, para produzir impressões artesanais luxuosas e livros, utilizando processos e criando tipos que remetiam a impressão medieval, com grande influencia do trabalho de Peter Löslein e Bernhard Maler, ambos artistas do século XV, que criaram iniciais e borders em matrizes para impressão na oficina do prototipografo alemão Erhard Ratdolt (1442-1528). A inspiração no trabalho de Löslein e Maler levou Morris a criar as mais belas paginas já impressas até hoje em tipologia gótico medieval. .

Livro em impressão da “Kelmscott Press” com “incunabulas” medievais. . Os conflitos e aspirações que William Morris nutriu em relação a sua época e a seus contemporâneos ele registrou nos livros que escreveu ao longo de sua vida, como o classico “Tales From Now Here”, um romance utópico sobre um mundo perfeito e impossível. A sua literatura influenciou grandes escritores, com destaque para C.S. Lewis (1898-1963), o criador de “Narnia”, e especialmente J.R.R.Tolkien (1892-1973), cuja obra “The Lord of the Rings” esta impregnada do medievalismo germânico de “The House of the Woldings” (1888), e também a plasticidade orgânica dos desenhos de Morris constroem todo o mundo élfico de Tolkien. É de Morris também a tradução inglesa da “Eneida” de Virgilio (1875) e a “Odisséia” de Homero (1887). . 
“Acanthus” / Papel de parede / William Morris/ 1874. . Ainda jovem, Morris projetou e construiu, junto com o arquiteto Philip Webb, a “Casa Vermelha”, em Bexley Heath, em Kent. Essa casa era seu presente de casamento para uma jovem de pele alva e cabelos rutilos, uma beldade da classe trabalhadora chamada Jane Burden, com quem ele se casou em 1858. Jane foi a musa inspiradora dos pré-raphaelitas, que a consideravam como uma jóia suprema de beleza medieval. No entanto, Morris não encontrou a felicidade no seu amor por ela, já que Jane Morris manteve um caso amoroso durante vários anos com Dante Gabriel Rossetti, causando grande sofrimento ao seu marido. Curiosamente, e talvez por isso, toda a sua obra esteja permeada por um romantismo renitente. Morris faleceu em 3 de outubro de 1896, em Londres. .

Penas de pavão em papel de parede / William Morris. . A extensão e grandeza do trabalho de William Morris contagia e apaixona até nossos dias, quando na minha opinião, ele se torna cada vez mais necessário e pertinente. Em 2003 a beleza de suas estampas e sua vibrante paleta de cores foi tema da grife italiana “Prada”, em belíssima coleção, e também tema de Alexander McQueen e Kenzo em seus últimos trabalhos. É na sofisticação e elegância do desenho que seu trabalho se torna um tesouro da arte gráfica, e com suas idéias ele eliminou as fronteiras que dividiam arte e artesania, que infelizmente alguns desinformados ainda insistem em reerguer. A criação artística e a execução por oficio tornam o designer completo. Encerro esse longo mas merecido post com uma frase de William Morris sobre os artesãos medievais: “...cada homem que fabricava um objeto fazia ao mesmo tempo uma obra de arte e um instrumento útil...”. . 
Coleção Prada 2003 / Estampa inspirada nos desenhos de William Morris (a esquerda); Jaqueta de Alexander McQueen com estampa de William Morris (a direita). Ver também: * post “A English Woman...Lucienne Day” de 25/06/2010. * post “Estampa na arte ou arte na estampa?” de 08/10/2009.

“Bem-querer”/ Xale de chiffon de seda em batik javanês sobre colchão de lona em floral inspirado por William Morris/ Celso Lima/ 2009.
Escrito por Celso Lima às 19h31
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HENRIQUETA GOMES E UMA ARTE NATIVA APLICADA
. O desenho de estamparia no Brasil sempre esteve a margem do desenvolvimento da industria têxtil nacional, que a partir da década de 20 se tornou setor importante da economia. Da dependência absoluta da padronagem européia até a Segunda Guerra Mundial à influencia do design norte-americano a partir da segunda metade do século XX, o desenho de estampa têxtil no Brasil foi sempre de cópia e manejo gráfico sucateado, até a recente ditadura do desenho digital (afinal esgotada!). Mas o que seria um padrão brasileiro? Essa questão a pesquisa e a criação devem, a seu tempo, responder, já que os profissionais de desenvolvimento do setor têxtil brasileiro se encontram cada vez mais pressionados pelo mercado externo na oferta de um design de estampa com referencial próprio e inovador, nativo. Essa palavra, “nativo”, nos leva a um capitulo da história do design de estampa no Brasil aonde essa preocupação, de um desenho com ventos brasileiros, foi, por um breve, belo e aventuresco momento, levada a cabo como resultado. 
Estampa “Goiaba” e “Sempreviva” pintado a mão sobre lona de algodão p/ ANA / Celso Lima 1997. .
Foi na metade da década de 70, pertencente a uma geração que desejava e reivindicava um pais com identidade de caracteres, como povo e sociedade, que a gaúcha Maria Henriqueta Marsiaj Gomes resolveu fundar a Arte Nativa Aplicada (ANA), uma empresa voltada ao têxtil de forração e acessórios para decoração, com produtos que remetiam as culturas regionais brasileiras, no desenho e na artesania. Depois de uma década de pesada ditadura, esboçava-se um inicio de abertura política, e o pais havia aprendido a duras penas que o mapa do território nacional era bem mais extenso do que se imaginava. A Amazônia e toda a região norte e nordeste se impunham ao sul e sudeste centralizadores, com problemas e vantagens. Em um Brasil então de gostos e preferências únicas, elitizado e fabril, a chamada “cultura popular” e seus produtos eram vistos com desconfiança e deboche. Curiosamente a atenção para a artesania nativa começou a ser despertada via estrangeiro, quando cerâmicas, cestarias e arte plumaria brasileiras começaram a surgir em conceituadas revistas de decoração européias, quando esse setor no Brasil entendia o uso do “artesanato” regional como um sacrilégio ao bom gosto, então habituado ao luxo “kitsch” norte-americano.

Estampa “Seringueira” sobre algodão / Arte Nativa Aplicada. . E foi nesse cenário que em 1976 Henriqueta Gomes estabeleceu a ANA. Com uma experiência acumulada em anos de trabalho na tecelagem “Parayba”, seu conhecimento sobre tecidos a colocou diante dessa quimera: um desenho de estampa brasileiro. E foi pensando nisso que ela se debruçou sobre a pesquisa dos grafismos indígenas de varias nações brasileiras, além do uso de expressões gráficas da artesania regional, um mix da cultura negra e européia, resultando em uma variada coleção de padronagens que constituíram o acervo inicial da Arte Nativa Aplicada. Utilizando o talento de vários profissionais, artistas plásticos e designers gráficos, Henriqueta alavancou um estilo de uso do Brasil como forma estética, afinal uma padronagem nativa, brasileira original. 
Desenhos da nação kadiweu feitos sobre papel. . Os sofisticados produtos da ANA traziam consigo um resgate de oportunidades para artesãos do interior do pais, que passaram a ter seu trabalho reconhecido. O entrelaçado das culturas que compõem o imaginário do desenho brasileiro, ou seja, indígena, negra e européia, se revelavam em objetos e grafismos de norte a sul do pais naquela pequena loja no bairro de Cerqueira César, em São Paulo. 
Estampas pintadas sobre juta / Ivone Rigobello. . Participando de vários eventos da industria têxtil e do setor de decoração no Brasil e no exterior, a ANA acumulou sucessos e prêmios. Suas estampas foram varias vezes premiadas pelo Museu da Casa Brasileira, e os produtos da Arte Nativa passaram a ter um certo caráter institucional, sendo muitas vezes presenteados a autoridades e celebridades estrangeiras como um autentico pedaço do Brasil. Provocou uma mudança no segmento da decoração brasileira, mostrando o luxo e a sofisticação de nossa cultura nas paredes e nos sofás das salas bem decoradas. No desenho de estampa, a utilização de grafismos indígenas, como Kadiweus e Karajas, dentre muitos, e desenhos florais e de frutas, como seu famoso tecido com estampa de bananas (...yes, nos temos bananas!..), inflamavam os têxteis para forração de mobiliários, echarpes de seda e xales de lã. . 
Estampa “Bananas” sobre algodão para ANA por Íris di Ciommo e Circe Bernardes. . Meu contato com a ANA aconteceu em 1996 através de Elisa Gomes, filha e parceira de Henriqueta, quando ali já se reuniam trabalhos de importantes designers e artistas plásticos que tinham como tema e compromisso o ambiente brasileiro. Para a Arte Nativa Aplicada eu criei varias estampas, sobre seda, lã, linho e algodão, em fio tinto e pintado, e a linguagem gráfica indígena brasileira foi definitivamente incorporada em meu trabalho. O conhecimento travado com outros artistas, como Ivone Rigobello, Joana Lira e Claudia Araújo, me rendeu experiências e amizades. Não conheci pessoalmente Henriqueta Gomes, que infelizmente faleceu tragicamente em 1991, num desastre aéreo, quando regressava da Bahia para São Paulo junto com seu marido, o então senador Severo Gomes, e o casal Ulisses Guimarães. Com seu desaparecimento, a ANA passou a ser dirigida por Elisa Gomes, com brilho e talento, até que no inicio desse século, dando por finalizada essa grande aventura do design de estampa brasileiro, Elisa encerrou as atividades da Arte Nativa Aplicada, partindo para novos desafios.
 Estampas “Mamão”, “Galinha d’Angola”, “Gibóia” e “Flor do Quiabo” em batik javanês sobre shantung de seda p/ ANA/ Celso Lima 1998. . 
Cadeira em madeira de demolição com tecido estampa ANA. . O trabalho de Henriqueta Gomes aguarda o seu resgate, que com certeza ocorrera no momento em que os designers brasileiros compreenderem a importância do regional nativo no desenvolvimento de uma estampa brasileira para o mundo. Que não se entenda com isso um desenho “folclórico” brasileiro, mas uma temática original inspirada e inspiradora, que possa se tornar de importância gráfica internacional sem deixar de ser nativa do Brasil. Já se observa há alguns anos algumas experiências bem sucedidas, embora intermitentes, nesse sentido. Enquanto isso, as peças e tecidos da Arte Nativa Aplicada continuam, perenes, enfeitando os ambientes do bem morar nesse nosso tropical pais. Ver também post Índio Estampado 15/12/2008 DICA: O moderno esta de volta a São Paulo na belíssima exposição do fotógrafo russo (então soviético) Aleksandr Ródtchenko (1891-1956), em bem montada retrospectiva. O que aconteceu na Rússia do inicio do século XX e após a revolução em 1917 até o inicio dos anos 30, o vanguardismo alucinado e maravilhoso do modernismo soviético, até hoje me impressiona, e a fotografia de Ródtchenko é uma amostra desse momento, quando a criação artística foi questionada em seu ideal estético romântico e colocada como instrumento de manifestação plena do pensamento do homem como animal político social, esse paradoxo do construtivismo russo. Naquele caldeirão efervescente da Rússia pré e pós revolucionaria, o trabalho de Ródtchenko faz na fotografia o que Sergei Eisenstein realiza no cinema e Konstantin Melnikov na arquitetura, o mundo humano exposto em luz e sombras, devorado em preto e branco. E essa viagem na ilusão da forma e do espaço acontece na Pinacoteca do Estado, na Praça da Luz no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, até 01/05 (...uma atenção especial ao retrato que Rodtchenko faz de Vladimir Maiakovski, esse hércules atormentado da poesia russa!...)

...”nos demais, todo mundo sabe, o coração tem moradia certa, fica bem aqui no meio do peito, mas comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração...” / Vladimir Maiakovski (clicado por Rodtchenko).
Escrito por Celso Lima às 18h05
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KUBA DO CONGO Narra-se que, mal se avistaram os navios pelos muros do porto, e a multidão já se aglomerou no cais, nessa época essas naus ainda não causavam medo. Navios atracados, começa então o desembarque, e já o primeiro grupo em terra causa na audiência maltrapilha espanto e fascínio: muito magros, a maioria adoentados, mesmo assim aqueles negros mantem sua altivez, envoltos em roupas bordadas em labirintos infinitos nunca vistos, sobre os fios de palmeiras de sua real terra distante, muitos ali príncipes e princesas de seus reinos, que trazidos por mar a uma terra estrangeira conhecerão o martírio e o horror da escravidão. Foi assim que São Salvador da Bahia de Todos os Santos recebeu, a quatro séculos atrás, os primeiros grupos de negros angolanos destinados a infâmia do trabalho escravo.

Tecidos em ráfia com apliques da etnia Ngongo do povo Kuba / Congo. . Os tecidos bordados que envolviam os escravos angolanos na sua chegada haviam sido comprados pelos traficantes portugueses em Angola, com o objetivo de vestir os então desnudos negros aprisionados para a sua jornada. Esses tecidos (mais de 40.000 peças) provinham do norte e chegavam a Angola via mercadores africanos. Sua origem era um reino distante, situado em um território na África Central, entre os rios Sankuru, Lulua e Kasai, no sudeste do que é hoje a Republica Democrática do Congo: o reino Kuba. . Mapa da Republica Democrática do Congo. . O reino Kuba surgiu no século XVI, fundado por povos que migraram do norte, daí “kuba” (em oposição ao povo do sul, “luba”). Sua capital era Nsheng, hoje a cidade de Mushenge. O reino possuía uma composição clanica bantu, constituída por mais de vinte grupos diferentes (clãs Bakongo), sendo o dominante os Bushong, a “aristocracia” bakuba. O reino, ou “Federação Kuba”, possuía hierarquias rígidas e uma grande diversidade religiosa, abrangendo vários cultos, e sua principal atividade era a agricultura, possuindo também excelentes artesãos têxteis. E foram esses artistas que tornaram o povo kuba célebre no ocidente, graças aos belíssimos tecidos confeccionados com um fio fibroso extraído de uma palmeira (“Raphia”), que lhe da o nome. .  Tecido em ráfia com apliques da etnia Ngongo / Congo. . Os têxteis de ráfia dos kuba se tornaram valiosíssimos a partir do século XIX, quando os belgas (que colonizaram a região até 1960) levaram para a Europa as primeiras peças, com seus apliques e bordados, seus veludos e tramas (apesar de comercializados pelos portugueses desde o século XVII, eram pouco valorizados por eles). Seus veludos em rafia deslumbraram os colonizadores e enfeitaram seus palácios na Bélgica, se espalhando por toda a Europa , e era comum serem presenteados pelos reis belgas a autoridades estrangeiras. .  Tecido ráfia em apliques e patchwork da etnia Bushong / Congo.
. O veludo em ráfia (“mbol”) dos bakuba é um capitulo a parte na história da tecelagem. Produzido a partir de uma pequena tela (geralmente feita pelos homens), mulheres e crianças da etnia Shoowa (que dá nome a esse veludo) confeccionam com pontos de bordados um tecido aveludado, de toque extremamente macio. A medida que bordam, executam belíssimos desenhos, que resultam padrões geométricos, muitos deles com nomes singelos e prosaicos como “molambo”(dedo), “bisha kota”(costas de crocodilo) e “nyinga”(fumaça). . 
Veludos de etnia Shoowa / Congo.
. Mas os tecidos kuba mais famosos são os bordados com apliques em padrões geométricos. Esses têxteis produzidos pela etnia Bushong, geralmente saias, possuem temas labirínticos (apliques) e arlequinos (patchwork) em suas padronagens. As cores da paleta kuba são obtidas por óxidos terrosos, carvão, enxofre e taninos. O povo bakuba também produziu belíssimos tecidos por amarrações, em processos semelhantes aos do adire ioruba. Nas ultimas décadas a situação material da população kuba se tornou extremamente precária e sua produção decaiu de maneira assombrosa, o que possibilitou uma industria de falsos “tecidos kuba” pelo mundo todo. Há pouco tempo encontrei em uma loja, em uma conhecida rua de comércio de tecidos de São Paulo, altas pilhas dessas peças, e eles eram extremamente atraentes apesar de falsos, já que a beleza da peculiar geometria kuba resiste até no mais barato arremedo (e eles nem eram tão baratos assim). Mas infelizmente os autênticos têxteis kuba hoje talvez sejam encontrados apenas em museus ou antiquários (há alguns anos encontrei algumas peças em uma loja em Paris, eram deslumbrantes e cuidadosamente colocados em uma caixa de vidro, caríssimos!...) 
Mulher kuba com seus trabalhos / Congo. . Pela sua localização, de dificil acesso, o reino Kuba foi poupado do comércio de escravos, e portanto teve uma longa sobrevida, o que não impediu sua arte de fazer parte de tão horrenda cenografia. Mas o trabalho desses artesãos africanos me apaixona, e faz brotar uma necessidade de imaginar: o que foi esse povo e sua cultura em seu apogeu? Mas eu aprendi que em relação a África e seus povos não há perguntas, pois sua história é contada por sua arte, sem soberba ou falsos acréscimos. . 
Batik javanês e adire-alabere sobre tafetá de seda com tema kuba / Celso Lima 1998 / Acervo Clô Orozco. “...Se pude ir tão profundamente no conhecimento destas tradições é porque nunca pedi explicações. Eu não tinha nenhuma idéia do que poderia perguntar.” Pierre Verger DICA: 
Para aguçar nossa alma e nossos olhos em uma jornada civilizatória, o Centro Cultural Banco do Brasil nos oferece a arte filigranada da cultura islâmica na exposição “Islã”. São mais de 300 obras que documentam o alcance da beleza e perfeição, uma estética para o espiritual. Aos interessados pelos têxteis, chamo a atenção para as túnicas estampadas em tritik vestidas sob capas de seda bordada (infelizmente as capas estão abotoadas, deixando a mostra apenas trechos das peças) e os robes “boubou”, majestosos, um em tingimento de índigo e o outro em belíssimo tecido de algodão cru. Para conhecer todo esse tesouro a entrada é franca e possível até 27/03/2011, no CCBB na rua Álvares Penteado, 112, nessa cidade de São Paulo. 
Escrito por Celso Lima às 21h35
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