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Celso Lima Estamparia


XADREZ

Setembro de 1297/Stirling/Escócia...O vento gelado de outono açoita sem trégua as pedras da ponte que atravessa o rio Forth, sobre a qual, parado e solitário, encontra-se um gigante louro cujos olhos observam com atenção o exército aquartelado na margem oposta do rio: são milhares de soldados prontos para batalha. No entanto esse homem e os milhares de highlanders que lidera infligirão derrota histórica ao exército inglês de Eduardo I. Nesse momento, sobre a ponte, William Wallace apenas espera o primeiro passo de seus oponentes. Para se proteger do frio inclemente usa uma manta de lã tecida em quadros nas cores vermelha, branca e verde amarrada com uma cinta de couro. Esse guerreiro usa a estampa que para sempre simbolizará a Escócia e a Bretanha, o primeiro tartan.

 Padrão Tartan clássico

O padrão xadrez de William tem origens mais remotas do que a Escócia do século XIII, e sua história tem sido contada de maneira confusa e imprecisa, já que o desenho quadriculado aparece no mundo em várias épocas e lugares. A utilização das geometrias como motivos decorativos tem sua origem no matemático Egito, no Antigo Império de 2.500a.C, quando pastilhas em entalhes quadriculados adornavam desde paredes palacianas até móveis e sarcófagos, entre outros objetos (na verdade a "Paleta Líbia" de 3.000a.C do Egito pré-dinástico já exibe vinhetas quadriculadas como decoração). Mas é claro que não se trata de um "xadrez", até porque sua origem é muito mais antiga: achados arqueológicos registram em 6.000a.C têxteis trançados de lã em rama e feltrada, em cores terrosas distintas, formando um autêntico "xadrez de trama". Esse tipo de xadrez, de trama ou sobreposição, aparecerá com frequência nos tecidos propriamente ditos, ou seja, com o aparecimento dos teares, e é resultado do uso de fios de cores e matizes diferenciados e contrastantes em uma mesma trama, cruzados na urdidura.

E o desenho xadrez, o que é? Ele aparece primeiro por volta de 2.000a.C no Egito, no tabuleiro do jogo "tjau", mas a palavra "xadrez" vem do sânscrito "chaturanga" que significa: chatur=quatro e anga=partes, designando a figura geométrica do quadrado (era também o nome de um jogo indiano com tabuleiro quadriculado). Nos têxteis é durante a Idade do Ferro (700 a 50a.C), no norte da Europa, que rústicos teares produzem os primeiros tecidos com fios em 2x2, com cores distintas e em cruzamento, resultando em um desenho quadriculado, já caracterizando padronagem. Desde então essa região adotou o quadriculado xadrez, o checker, como padrão preferencial, sendo que o "medeva" em vermelho e branco representa os nórdicos desde o século XII.

A padronagem é rica em versões, e são centenas delas, sendo uma das mais antigas a que vestia nosso Wallace: o tartan. Os tartans escoceses são tecidos em lã levíssima (a palavra "tartan" significa "tecido de lã") com fios tingidos em cores vivas, sendo as principais o branco, vermelho, verde e azul. Em um padrão de listras verticais e horizontais que se cruzam, essa estampa representava cada clã, e as famílias eram identificadas pelas cores. Até hoje os nobres da Grã-Bretanha se apresentam com suas padronagens próprias. Esses fios coloridos tecidos, que se cruzam na urdidura e na trama formando quadrados ou losangos, produzem linhas paralelas desenhadas que levam o nome de "sett". Sua história esta repleta de dramas e acontecimentos relacionados com a origem da Escócia e da Grã-Bretanha. E há curiosidades: no final do século XIX o escritor inglês Arthur Conan Doyle criou seu célebre personagem Sherlock Holmes, o detetive londrino, que para sempre será representado usando capa e chapéu axadrezados, que talvez tenham inspirado Thomas Burberry, em 1924, a criar sua famosa linha de capas de chuva forradas com xadrez em bege, preto, vermelho e branco, o tartan burberry. Eduardo VIII imortalizou o tartan balmoral quando pediu que ele fosse executado apenas em tons de cinza, café e preto, para seus ternos pessoais, e essa estampa até hoje leva seu nome: príncipe de Gales.

 Basil Rathbone encarna Sherlock Holmes em produção inglesa.

É também oitocentista o surgimento na Índia de um padrão autenticamente anglo-indiano: inspirados pelos xadrezes escoceses e britânicos, os indianos misturaram fios tingidos em azul (com indigo) e amarelo (com curcuma) produzindo um policromático quadriculado em sobreposição, e tudo isso aconteceu na cidade indiana de Madras, que deu seu nome à esse padrão, o xadrez madras. Hoje ele é produzido com uma variedade imensa de cores.

 

Xadrez tipo madras em batik javanês sobre tafetá de seda./1997 /Celso Lima

No início do século XX começam a surgir os primeiros xadrezes de composição, ou seja, desenhados. Esse tipo de xadrez não resulta da sobreposição cruzada de listras, mas da repetição do quadrado. O xadrez de Vichy é um bom exemplo desse rapport quadriculado, sendo originalmente feito apenas em preto-e-branco nessa cidade francesa, desde meados do século XIX. Ainda no tear vemos novo xadrez nascer, no entrelaçamento dos fios de trama com os do urdume, produzindo uma espécie de desenho em gancho, o famoso pied-de-poule (pé-de-galinha em francês). Seu nome se deve ao formato em pontas parecido com os pés de uma ave. Quando o padrão é executado em desenho ampliado recebe o nome de pied-de-coq (pé-de-galo). Foi esse xadrez que a revolucionária Coco Chanel levou para as roupas femininas na década de 30, quando essa padronagem era considerada absolutamente masculina. Chanel também inovou lançando uma coleção de bolsas e meias com estampas de tartans escoceses em plena Segunda Guerra, o que se considerou erroneamente um ato de resistência à ocupação nazista na França, pois hoje sabemos que as simpatias de Coco eram outras.

  

Coco Chanel transformou o pied-de-poule em sinônimo de moderno no xadrez.

Dentre os xadrezes compostos, o chessterfield é também um clássico com suas inspirações decô, e ainda hoje é muito utilizado em várias versões, principalmente em forrações. Nos anos 20 o pintor holandês Piet Mondrian desconstruiu o xadrez em sua magnífica obra neoplasticista, influenciando todo o design e arte decorativa, industrial e publicitária posteriores. Pois é, esse simpático padrão tem uma história que fascina, cheia de aventuras, dramas e talentos, sendo o xadrez verdadeiro labirinto de quadrados, um mantra geométrico dessas quatro partes.

Xadrez tipo chessterfield pintado a mão sobre lona de algodão./1998 / Celso Lima

 

 



Escrito por Celso Lima às 18h08
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