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O ÍNDIO ESTAMPADO
O canhão de luz destacava no negror do palco a mulher, quase sacerdotisa, que em um transe hipnótico e apoteótico cravava nos ouvidos e corações da platéia uma música que falava de um homem, um verdadeiro apanágio anímico que desceria dos céus sobre nós e resgataria definitivamente nossa brasilidade tropical: um índio na sua majestosa totalidade de ser que na poderosa voz de Maria Bethânia encheu o Anhembi numa noite quente, doce e bárbara de 1976.
Bethânia, 1976
A esperança de resgate (ou descoberta?) de nossa porção nativa, o índio que vive adormecido ou envergonhado dentro de nós, é jovem. Nossa relação histórica com nossos povos nativos é permeada por violência, usurpação e desprezo. Talvez nunca consigamos admitir que eram eles os verdadeiros donos da terra, e que nada puderam contra a força mercenária dos europeus colonizadores. É recente a visão do indígena sul-americano como agente social e cultural, como também não tem um século desde que sua importância histórica e antropológica passou a ser percebida e reconhecida.

Batik Javanês sobre seda pura (fragmento painel "Cidade" - 2005 / Celso Lima).
Foi a partir da década de 30, com o surgimento do modernismo brasileiro, que artistas e intelectuais iniciaram sua busca por raízes, genes culturais que representassem a brasilidade como elemento absolutamente original. Mário de Andrade produziu belos textos de viés antropológico sobre a importância de nossos índios, e nas últimas décadas, apesar das dificuldades que a perseguição e marginalização das tribos causou a seus aparelhos culturais, a questão indígena ocupa lugar importante nos estudos de nossas origens como povo. Um aspecto das manifestações culturais de nossas nações indígenas sempre me atraiu a atenção: a pintura de grafismos.
O grafismo indígena é um fio condutor de extensas narrativas de características étnicas distintas e compõe um enorme acervo de arte iconográfica. Estudos de etnologia nos últimos 50 anos revelam traduções gráficas pelos indígenas de sua organização social e cosmologia, origens de mitologias, rituais e xamânicas, sua ecologia e economia. É um tema extenso, mas gostaria de apenas expor alguns belos exemplos dessa magnífica arte de nossos povos nativos.
Grafismos Kadiweus sobre papel.
Meu primeiro contato com o grafismo indígena como referência importante foi através do desenho kadiweu, e o enorme acervo gráfico desse povo impressiona. O desenho kadiweu acontece através de abstrações e geometrias, quase sempre em oposição binária, e traduzem desde hierarquias até pequenos relatos ou simplesmente nomes, sem conotações míticas. O etnólogo francês Lévi-Strauss, em suas pesquisas no Brasil em 1935, observou o grande efeito erótico que os grafismos produziam nas pinturas corporais e seu papel como elo social. O corpo como suporte nos remete aos Karajás, cujo trabalho de pintura corporal cria um verdadeiro mapa ecológico do ambiente vital do índio. Os motivos gráficos aplicados nos corpos (também usados em cestarias e utilitários) dos karajás também constitui acervo para os javaés, e cada desenho possui um nome e significado, que em geral remete à fauna e flora, exceto os padrões geometricos de expressão cósmica (as "gregas" karajás se tornaram um clássico do grafismo indígena apropriado e traduzido por diversos artistas).

Pintura corporal feminina c/ grafismo Karajá / Pintura corporal masculina c/ grafismo Javaé.
O poder ritualístico da pintura corporal aparece em vários grupos indígenas, e se caracteriza como "vestimenta" para contato com os seres de sua cosmologia. Mas a natureza da terra é também grande fonte inspiradora, e a iconografia wayana mostra o elemento natural, seja uma fruta como o jenipapo (utilizado como tintura) ou a lagarta mítica (kurupêakê) e a cobra-grande (tuluperê) como tema principal. Na verdade toda a compreensão e tradução da natureza pelos indígenas são geradoras de poderosa mitologia. Outro aspecto importante do grafismo indígena na pintura corporal é ilustrado pela nação Xerente, e é seu poder de classificação e introdução social do indivíduo. Dividindo em grupos distintos dentro de sua sociedade (metades, clãs, linhagens e rituais) os grafismos sustentam através da representação simbólica o papel do sujeito social. Sua síntese geométrica, já que os motivos xerente são compostos básicamente por traços e círculos, é impecável e belíssimamente executado em preto, vermelho e branco (obtidos de carvoaria, urucum e no caso do branco com penugem de periquito ou algodão).
Além da natureza e suas mitologias, outra grande temática da arte gráfica indígena é o sobrenatural. O acervo de representação dos waiãpi (do ramo tupi-guarani) mostra elaborada cosmologia do "fora", o mundo dos "outros" (geralmente relaciona-se aos mortos ou inimigos) e possui uma construção gráfica extremamente espontânea e suas pinturas corporais não possuem nenhum significado social. Também o cotidiano gera grafismos waiãpi, e esses são extremamente delicados e poéticos, e a natureza é descrita por belas geometrias como o iãwi (casco de jabuti) ou moj (cobra).
Casa Cláudia / 1999
Batik Javanês sobre sarja de seda com grafismo Asurini ( Celso Lima) para Arte Nativa Aplicada e cestaria da tribo Baniwa.
E há um universo a ser descoberto e lido nos grafismos indígenas, sejam ticuna, asurini, karajá, desâna, wayana e tantos outros. Todos esses povos constituem raiz para nossa brasilidade, seja ela tropicália ou modernista, barroca ou afro, e estavam e ocupavam toda nossa natureza muito antes. Sejamos gratos e atentos à esse legado, nossa memória nativa. Encerro esse texto com uma citação do etnólogo H. Balfet: "a tecnologia humana - diferentemente da animal - esta ligada à existência de uma memória social étnica. Memória que permite a cada geração sobreviver sem ter que reinventar tudo e que serve de ponto de partida para eventuais progressos."
Escrito por Celso Lima às 14h37
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