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LONDRES NO PUNJAB Há alguns anos, em uma viagem a Índia, hospedado em casa de amigos experimentei um prato delicioso, um curry de frutas magnífico preparado por Rajeeh, meu anfitrião, que então me contou a curiosa estória dessa maravilha culinária: estudando em Londres nos anos 80, ele dividia um pequeno apartamento no Chelsea com cinco amigos, sendo um deles norte-americano de Los Angeles, que resolveu surpreende-lo com um cozido indiano que sua avó lhe ensinara, e que por sua vez havia aprendido a receita nos anos 40, quando, como redatora dos estúdios da Fox, certa noite jantara em casa da atriz irlandesa Maureen O”Hara, que serviu a mesa um estupendo curry. Diante do sucesso gastronômico, Maureen contou aos presentes que Richard Llewellyn, autor de “Como Era Verde o Meu Vale”, lhe havia ensinado esse prato durante as filmagens de seu livro, em 1941, e que na verdade se tratava de uma receita inglesa, autenticamente anglo-indiana. Maureen O'hara
Esse verdadeiro tour planetário dessa iguaria nos traz uma Índia diferente, cujo povo curioso e imaginativo não deve jamais ser representado por caricaturas vulgares e grosseiras. A Índia é um grande país com uma enorme população, de matizes étnicos e aspectos culturais bastante diversificados, com motivações regionais e religiosas. Seu contato com o ocidente se deu de maneira espetacular e traumática, desde a visita de Vasco da Gama* até a tomada do poder pelos ingleses em 1857, quando então se iniciou um doloroso processo de colonização britânica, até a independência em 1947. Contudo, o encontro entre esses dois povos não produziria apenas revoltas e sofrimentos, consequências do jugo britânico, mas também o surgimento de um novo elemento étnico: o anglo-indiano, fruto do convívio e miscigenação entre indianos e ingleses. Também as culturas se mesclaram, nascendo daí a mais saborosa das misturas, já que a exuberância e os excessos estéticos da Índia sabotaram completamente a rigidez formal da vitoriana Inglaterra. Isso é evidente nas estampas que passam a surgir na Índia e em toda a Malásia a partir do final do século XIX. O xadrez madras e os florais em buquês com combinações de listras de clara influência européia, com utilização de cores cítricas e pastéis com contrastes em preto e indigo evidenciam nova padronagem, tanto indiana quanto inglesa, ou seja, anglo-indiana. Outras áreas também sofreram influências flagrantes, entre elas a literatura, quando a partir do final oitocentista começam a surgir os primeiros escritores anglo-indianos, que caminham praticamente sobre o fio-da-navalha, já que essa fusão que acontece no cotidiano da colônia, a revelia da sociedade de castas indiana e do espirito classista inglês, não era bem vista por ambos os lados, e a partir do início do século XX é claramente condenada pelos indianos que iniciavam campanhas intensas contra o elemento britânico na Índia, culminando no movimento para a independência (a roca de fiar na bandeira da Índia mostra o poderoso significado político do têxtil, quando Gandhi, líder do movimento nacionalista indiano*, conclamou seus patrícios a não utilizarem tecidos ingleses e produzirem os seus próprios têxteis em suas casas, num retorno aos hábitos de vida indianos). 
Sarongue em batik com padronagem anglo-indiana - Foto Pepin Van Roojen O que esse mix cultural nos mostra é a versatilidade dos hábitos e conhecimentos dos povos. O hermetismo soberbo que a política colonialista inglesa pretendera sucumbiu diante da riqueza exuberante de uma cultura milenar. A Índia merece toda a nossa curiosidade e imaginação, toda a nossa disposição em aprender sua tranquila e divertida forma de viver, apesar de suas mazelas, como a miséria e o obscurantismo religioso que ainda persistem. Sua cultura, seja na pintura, arquitetura, estamparia ou literatura, é um verdadeiro monumento da realização humana. Podemos vê-la mística, mas nunca mistificada. * Para complementar esse post procure no blog: “Chegada a Calicute: Chitras & Especiarias” em 17/09/2007 e “A Revolta do Indigo & A Marcha do Sal” em 25/04/2008. Foto Revista Casa Claudia
Toalha em shantung de seda / Batik javanês / Celso Lima 2000 - Acervo Pedro A. Santana Rajeeh foi gentil e me ensinou essa delícia anglo-indiana, que eu compartilho com vocês. É na verdade um prato muito simples, e os ingredientes para um almoço são: 1 quilo de carne de carneiro ou frango, 4 mangas maduras, 4 maçãs verdes (das picantes), 4 bananas maduras, 1 coco ralado, uma colher de sopa de gengibre ralado, 5 dentes de alho e curry a gosto (recomendo o Madras da latinha verde). O modo de preparo requer um pouco de paciência, já que é preciso cortar todas as frutas em cubinhos, exceto o coco que deve ser ralado. Refoga-se a cebola e o alho aonde se cozinha e doura as carnes por 10 a 15 minutos, salgando a gosto. Feito isso acrescenta-se as frutas e, mexendo sempre, cozinha-se por 15 a 20 minutos, até que as frutas se tornem um molho cremoso, sempre salgando, e adiciona-se o curry (cuidado que no Brasil adiciona-se sal às misturas de curry, o Madras indiano é, ao contrário, levemente adocicado, mas bastante picante, então...) Apure por mais 5 minutos e está pronta essa maravilha. Acompanha-se apenas por arroz branco (uma dica: ao invés de água sómente, cozinhe o arroz em chá preto darjeeling, fica muuuuito bom!).
Escrito por Celso Lima às 09h45
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