| |
A COR DE UM IMPÉRIO 02 de setembro de 31 a.C/Alexandria – Depois de uma angustiante noite de espera o exército romano, a bordo de sua frota naval, via o dia nascer. No convés de seu navio, Octavius e seu general Agrippa observam o horizonte atônitos, num misto de fascínio e horror: diante deles a portentosa esquadra egípcia se assemelha a uma murada em chamas, sobre as águas labaredas assustadoras. Para seus soldados, é seu próprio sangue que tinge as velas rubras das naves da rainha. A bordo de seu luxuoso navio, nesse confronto final que ganhou o nome de batalha de Actium, Cleópatra perderá tudo o que ama: o Egito e Marco Antônio. Elizabeth Taylor, como Cleópatra.
O estratagema de Cleópatra de tingir em purpura as velas de seus navios não surtiu o efeito desejado em seus oponentes, curiosamente em desvantagem, pois os navios egípcios eram maiores e mais numerosos, no entanto os romanos possuíam uma frota de naus menores e mais rápidas e soldados mais leais (Marco Antônio enfrentou motins durante essa penosa luta e abandonou seus soldados a própria sorte). Na verdade Cleópatra havia utilizado o truque de Alexandre da Macedônia, que venceu os persas com seu exército em vestes vermelhas, desconcentrando completamente seus oponentes. O exército de Alexandre usou também como arma um pigmento, a alizarina, extraído da raiz da garança (“rubia tinctorium”), planta abundante na região do mar Egeu. É também das ilhas do Egeu o primeiro relato sobre a púrpura, ou “fogo de Creta”, citado por Aristóteles, que como Heródoto*, também era um viajante.
Maquete Roma Imperial O pigmento que produzia a cor purpura, um tom de vermelho magentado, já era conhecido e utilizado em pinturas nas ilhas egéias desde o final do Neolitico, e sua extração e utilização é um romance tecnológico espetacular. Extraido dos moluscos “murex” (“murex brandaris” e “murex trunculus”), o múrice foi primeiramente usado na tinturaria pelos fenícios, que descobriram sua correta preparação para esses fins. Chamado de “púrpura de Tiro”, em homenagem a essa cidade fenícia, o pigmento era obtido em paciente processo: o molusco era triturado e salgado por três dias e depois cozido por pelo menos uma semana, até que a carne se desprendesse por decantação e resultasse em um caldo no qual os tecidos eram imersos. Curiosamente os têxteis eram retirados do molho em cores amareladas, já que, como o indigo, a cor púrpura surgia por oxidação, ao ar livre. A tinturaria da púrpura era complexa e demorada, e portanto valiosa, sempre em linho e lã, já que os fenícios não aplicavam a mordência romana ao pigmento múrice e dependiam de um demorado processo de oxidação para atingir a cor intensa da púrpura. Molusco "Murex"
Esse tingimento foi extremamente apreciado pela Roma antiga, aonde se misturou o indigo (“isatis tinctoria”) ao múrice para obter a cor púrpura imperial, símbolo de força e coragem do sangue romano. Num tom entre vermelho e violeta, a púrpura imperial era usada pelo senado romano, cujos membros vestiam togas (costume herdado dos etruscos) nessa cor. Com o fim da República romana e o surgimento do império, se tornou de uso exclusivo dos imperadores. Nero chegou a decretar uma pena de morte a quem ousasse usar a cor. Tanto o índigo como o múrice colorem por oxidação, que os romanos aceleravam e fixavam com um mordente composto de folhas de videira fermentadas com urina. As substâncias responsáveis pelo azul do indigo e pelo púrpura surgem apenas na degradação das matérias, sejam as folhas do índigo, sejam os moluscos murex. Na medida em que conquistaram toda a costa atlântica européia, os romanos descobriram outro molusco que também produzia um pigmento para púrpura, o “púrpura haemostona”, e inclusive o criaram em viveiros para esse fim. Com a queda de Constantinopla, em 1453, os segredos dessa tecnologia tintureira se perderam e só recentemente um inglês que estudava o anil, John Edmonds, conseguiu recuperar todo o processo. 
Fragmento painel "Pavões" - Batik javanês sobre crepe de chine em magenta e púrpura/2007 Celso Lima. A púrpura foi adotada pela Igreja como símbolo da força restauradora da fé cristã, e sempre representou os poderes de realezas e impérios. Até hoje sua história, um verdadeiro romance épico, nos traz um momento do homem, movido então por paixões, curiosidades e invenções. * Ver o post Tinturaria de Tebas a Bauhaus em 01/02/08
Escrito por Celso Lima às 09h48
[]
[envie esta mensagem]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|