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WAX-PRINT
FLORES, CORES E CALORES DA ÁFRICA “Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong. A linha do equador cruza aquele planalto ao norte, a 160 quilometros da fazenda. Ali não havia nada de excessivo ou luxuriante; era a África destilada por uma altitude de 1.800 metros, a essencia forte e sublimada de um continente. As cores eram secas e crestadas, como uma cerâmica. As árvores exibiam uma folhagem leve e delicada, com uma estrutura diferente daquela encontrada nas árvores da Europa. Sobre a relva de imensa planície espalhavam-se as velhas acácias, retorcidas e desnudas, e a relva exalava uma fragrância como a de tomilho e alecrim-do-norte; as vezes o aroma era tão pungente que as narinas ardiam. Quase sempre o céu era de um azul ou violeta claros, navegado por uma profusão de nuvens majestosas, imponderáveis e sempre mutáveis, mas era de um azul intenso. Ao meio-dia, o ar recobrava vida sobre a terra, como uma chama tremulando; cintilava, ondulava e brilhava como água corrente, espelhava e duplicava todos os objetos, criando grandes miragens. No altiplano, nós acordamos de manhã e pensamos: Aqui estou, exatamente onde devia estar.” 
Karen Blixen, uma européia na Africa. Essas impressões apaixonadas da escritora dinamarquesa Karen Blixen* sobre a natureza do Quênia, aonde morou por décadas, sempre me emocionam pelo que têm de sensoriais. Através de suas narrativas sentimos os cheiros, cores e calores africanos. Uma das minhas primeiras impressões da África foram também as cores, em especial das mulheres envoltas em suas capulanas floridas no Moçambique, com inúmeras e multicoloridas estampas. Ainda hoje uma das perguntas mais frequentes que me fazem é sobre esse famoso tecido estampado africano, o wax-print. 
Tecidos feito com Wax print. Foto Catherine Legrand O wax-print é um tecido de algodão estampado nos dois lados, sem avesso, em um processo semi-fabril criado pelos holandeses a partir da técnica do batik javanês, com a utilização de cilindros de estampar. Esses cilindros são de cobre com os motivos gravados que serão aplicados com cera em máscaras, com um primeiro tingimento em indigo, e as demais cores aplicadas a quadro. Essa é a técnica original holandesa, o tradicional real dutch wax. Mas a partir dos anos 40 empresas holandesas e inglesas começaram a estampar o wax-print industrialmente, em um lado só do tecido, e as extravagantes estampas dos batiks originais se espalharam por todo o continente se tornando um símbolo da vestimenta africana. Uma das empresas, a Wax Print, estabelecida na Holanda, Costa-do-Marfim e Nigéria desde o final do século XIX, é responsável pela maior parte dos motivos clássicos, adaptações de florais europeus e batiks javaneses para padrões africanos, e são centenas, talvez milhares de estampas que ilustram o cotidiano do africano, sendo que as padronagens mais populares desse período traziam referencias ao universo feminino, como atributos físicos e sentimentos como o amor e o ciúme. Alguns padrões traziam nomes pitorescos e pueris como “a mais amada”, “mulher trabalhadora” ou “mãe de muitos filhos”, entre outros. 
Maternidade africana envolta em wax-print. Foto Catherine Legrand A técnica original do dutch wax foi levada para a África no final do século XIX, e há varias versões, sendo uma delas que soldados nativos das colônias holandesas africanas levados para a ilha de Java (também colônia holandesa até 1945) trouxeram a técnica do batik para a África. Na verdade os africanos já conheciam a técnica desde o século XVI, levada pelos indianos na primeira grande migração para a costa oriental africana. O que se sabe de certo sobre a origem do wax-print é que no final oitocentista, dada a grande popularização do batik na África, os holandeses, que já haviam tentado sem sucesso a industrialização da estamparia na Indonésia, resolveram estampar em um processo semi-fabril o batik manual. A adaptação para os cilindros foi responsável por uma produção em grande escala de algodão estampado com as características originais do batik. O wax-print original e de boa qualidade ainda é fabricado nesse processo, apesar da industrialização das ultimas décadas, sendo hoje estampados também na China, cujo produto é um tecido mais barato mas também de baixíssima qualidade. Os motivos também sofreram grandes mudanças, e atualmente existem estampas de celulares, tênis e também temas como a Aids e política local, além dos belíssimos florais e outros padrões clássicos africanos. Celso Lima/2009
Estampas inspiradas nos tecidos wax-print em batik javanês sobre chiffon de seda. Mas o wax-print continua sendo uma roupa da África, muitas vezes tristemente vistos em trágicas cenas do sofrido cotidiano africano. Há alguns anos, em uma exposição do fotógrafo Sebastião Salgado* sobre os conflitos em Ruanda, ali estavam os wax envolvendo pietás negras em fuga por estradas empoeiradas, um holocausto envolto em flores e geometrias. Quem sabe no futuro essa terra tão belamente descrita por Karen possa de fato viver seus dias com toda a alegria e beleza de suas estampas. * Karen Blixen é uma escritora dinamarquesa que usou durante anos o pseudonimo de Isak Dinesen na publicação de seus textos e seu livro “A Fazenda Africana”, no Brasil pela Cosac Naify, é a certeza de uma deliciosa literatura. A história de sua vida na África, por quem foi simplesmente apaixonada até o fim da vida, rendeu um belo filme: “Out of Africa”, com Meryl Streep e Robert Redford, dirigidos por Sidney Pollack em 1985. * Sebastião Salgado é um fotógrafo brasileiro residente na França que vem registrando em branco & preto as muitas tristezas e algumas alegrias desse nosso conturbado mundo. Ver post: - “Estamparia Africana” de 01/04/2008. - "Técnicas de Estampas na África” de 09/05/2007.
Escrito por Celso Lima às 10h21
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