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ESTAMPA NA ARTE OU ARTE NA ESTAMPA? Nos critérios muitas vezes rígidos que norteiam a crítica classificatória da arte a estamparia sempre esteve marginal e quase sempre banida como elemento central de expressão, quando muito aceita como coadjuvante. No entanto desde os murais e ourivesaria egípcias até os mosaicos e afrescos romanos, a padronagem em rapport sempre esteve presente como importante veículo gráfico. Durante a Idade Média, malvista pela ascendente Sé romana, a estampa é considerada exotismo oriental, impregnada de paganismo, e portanto condenada pela Igreja. Na arte asiática, porém, estão presentes os motivos de estamparia, desde a estatuária e arquitetura hindus, nos belíssimos padrões dos kimonos das gravuras japonesas e na rica azulejaria islâmica. Com o início da Renascença o ocidente redescobre cores e estampas, mas é a tapeçaria e o bordado que texturam e vestem a obra renascentista. Gravura japonesa/ Periodo Edo
O assunto é extenso e permeia todos os movimentos e intenções das artes seculares, mas a estamparia propriamente dita tem seu lugar de destaque na arte ocidental nos dois últimos séculos, em especial com alguns artistas do pós-impressionismo europeu. Estampa floral / Willian Morris.
Um dos principais artistas oitocentistas a trabalhar a estampa foi o pintor impressionista inglês William Morris ( 1834-1896).Morris intitulava seu trabalho de “arte utilitária”, devido ao seu interesse pela arquitetura doméstica, como mobiliário, tapeçarias e papéis de parede, mas no entanto seus padrões florais de clara influência medieval, mesmo assim extremamente originais e independentes, foram o estopim inspirador do Art Noveau. Mas é na geração de pintores do pós-impressionismo que a estampa ganha status de sujeito na obra: com a influência de Morris, o inglês Aubrey Beardsley (1872-1898) integrante de um grupo que se intitulava “Os Nabis” (Profeta em hebraico) recobre trechos de seus quadros com belíssimos padrões como as curvilíneas estampas de “Salomé” (1892) . E é a “Salomé” de Beardsley que nos leva ao maior de todos os artistas da estampa: o austríaco Gustav Klimt (1862-1918). 
Retrato de Adele Bloch Bauer I / Klimt / 1907
Klimt extrapola tudo o que se pode entender como espaço gráfico com suas colagens de padrões de influências milenares e orientais, desde a arte egípcia, bizantina e indiana até elementos da arte sacra medieval. Criador da “Secessão de Viena”, movimento que rompia com todas as regras de arte romântica e acadêmica do início e meados do século XIX, Klimt construiu sua obra com sentimento extremo da fatalidade, das pulsões, Eros e Tânatos no “Laboratório do Fim do Mundo”, como era então chamada a Viena oitocentista. Sua obsessão pela estamparia o fez construir tapeçarias com arvoredos e envolver mulheres em massas decorativas de estampas : “O Retrato de Adele Bloch Bauer I” e o "Retrato de Fritza Fiedler”,ambos retratando mulheres da alta sociedade vienense, subverte qualquer resquício de tradicionalismo: são telas aonde explodem o desejo erótico em enlouquecido patchwork e transformam senhoras burguesas em mulheres fatais, cujos vestidos parecem tatuagens. O Beijo / Gustav Klimt / 1908
Em “O Beijo”, Klimt usa a padronagem na identidade masculina e feminina. Suas volutas bizantinas,xadrezes e circulares orgânicas tomam conta de todo o espaço, ao mesmo tempo destacando e aprisionando o humano. Toda essa paixão pelo “pattern” levou Klimt a desenhar motivos para os tecidos usados pela sua companheira, a modista Emilie Flöge, em sua boutique de alta costura que atendia as ricas burguesas de Viena. Klimt faz parte de um grupo que a crítica incompreensivelmente chama de “artistas da decoração”, como Gauguin, Van Gogh , Delacroix, Ingres e Matisse.
Odalisca com calças vermelha / Matisse / 1921
Jean August Dominique Ingres (1780-1867), pintor que altera todo o espaço de ambientes em prol da luz e da textura, representava bordados e tapetes com a mesma importância que rostos e corpos femininos. Também em Eugene Delacroix (1798-1863) os ornamentos e estampas das vestes e tapeçarias são tratados com especial interesse. Mas como Klimt a estampa terá apenas outro pintor como seu artista: Henry Matisse (1869-1954), decano dos fundadores da pintura do séculos XX e um dos “Fauves” de 1905, era outro apaixonado pela figura recortada, a estampa. Desde o início suas obras trazem elementos gráficos passíveis de rapport, culminando nos estênceis e recortes (“seu desenhar com tesoura”, como dizia) das fases finais. Em Matisse tudo é cor e estampa, como em “ Odalisca com calça vermelha” (1921), uma mulher flutuando em padronagens. Há em seus quadros uma estória da figura, e segundo ele “ a estampa possui, além das qualidades gráficas, um ritmo cromático”. Seus dois estênceis sobre linho, “Oceania Mar“ e Oceania Céu”, de 1946 são verdadeiras aulas de desenho de estampa. Ele gostava de dizer que dar prazer era a finalidade dos seus trabalhos. 
Oceania Céu / Henry Matisse / 1946 Henry Matisse esta conosco, agora em São Paulo, em uma bela exposição na Pinacoteca do Estado, e o prazer que ele pretendia nos dar com suas obras é enorme e real, magnífico e emocionante.Não perca! CELSO LIMA / ( 011) 3875-5365
Escrito por Celso Lima às 14h36
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