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Celso Lima Estamparia


HENRIQUETA GOMES E UMA ARTE NATIVA APLICADA

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O desenho de estamparia no Brasil sempre esteve a margem do desenvolvimento da industria têxtil nacional, que a partir da década de 20 se tornou setor importante da economia. Da dependência absoluta da padronagem européia até a Segunda Guerra Mundial à influencia do design norte-americano a partir da segunda metade do século XX, o desenho de estampa têxtil no Brasil foi sempre de cópia e manejo gráfico sucateado, até a recente ditadura do desenho digital (afinal esgotada!). Mas o que seria um padrão brasileiro? Essa questão a pesquisa e a criação devem, a seu tempo, responder, já que os profissionais de desenvolvimento do setor têxtil brasileiro se encontram cada vez mais pressionados pelo mercado externo na oferta de um design de estampa com referencial próprio e inovador, nativo. Essa palavra, “nativo”, nos leva a um capitulo da história do design de estampa no Brasil aonde essa preocupação, de um desenho com ventos brasileiros, foi, por um breve, belo e aventuresco momento, levada a cabo como resultado.

 

Estampa “Goiaba” e “Sempreviva” pintado a mão sobre lona de algodão p/ ANA / Celso Lima 1997.

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Foi na metade da década de 70, pertencente a uma geração que desejava e reivindicava um pais com identidade de caracteres, como povo e sociedade, que a gaúcha Maria Henriqueta Marsiaj Gomes resolveu fundar a Arte Nativa Aplicada (ANA), uma empresa voltada ao têxtil de forração e acessórios para decoração, com produtos que remetiam as culturas regionais brasileiras, no desenho e na artesania. Depois de uma década de pesada ditadura, esboçava-se um inicio de abertura política, e o pais havia aprendido a duras penas que o mapa do território nacional era bem mais extenso do que se imaginava. A Amazônia e toda a região norte e nordeste se impunham ao sul e sudeste centralizadores, com problemas e vantagens. Em um Brasil então de gostos e preferências únicas, elitizado e fabril, a chamada “cultura popular” e seus produtos eram vistos com desconfiança e deboche. Curiosamente a atenção para a artesania nativa começou a ser despertada via estrangeiro, quando cerâmicas, cestarias e arte plumaria brasileiras começaram a surgir em conceituadas revistas de decoração européias, quando esse setor no Brasil entendia o uso do “artesanato” regional como um sacrilégio ao bom gosto, então habituado ao luxo “kitsch” norte-americano.

 

Estampa “Seringueira” sobre algodão / Arte Nativa Aplicada.

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E foi nesse cenário que em 1976 Henriqueta Gomes estabeleceu a ANA. Com uma experiência acumulada em anos de trabalho na tecelagem “Parayba”, seu conhecimento sobre tecidos a colocou diante dessa quimera: um desenho de estampa brasileiro. E foi pensando nisso que ela se debruçou sobre a pesquisa dos grafismos indígenas de varias nações brasileiras, além do uso de expressões gráficas da artesania regional, um mix da cultura negra e européia, resultando em uma variada coleção de padronagens que constituíram o acervo inicial da Arte Nativa Aplicada. Utilizando o talento de vários profissionais, artistas plásticos e designers gráficos, Henriqueta alavancou um estilo de uso do Brasil como forma estética, afinal uma padronagem nativa, brasileira original.

 

 

Desenhos da nação kadiweu feitos sobre papel.

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Os sofisticados produtos da ANA traziam consigo um resgate de oportunidades para artesãos do interior do pais, que passaram a ter seu trabalho reconhecido. O entrelaçado das culturas que compõem o imaginário do desenho brasileiro, ou seja, indígena, negra e européia, se revelavam em objetos e grafismos de norte a sul do pais naquela pequena loja no bairro de Cerqueira César, em São Paulo.

Estampas pintadas sobre juta / Ivone Rigobello.

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Participando de vários eventos da industria têxtil e do setor de decoração no Brasil e no exterior, a ANA acumulou sucessos e prêmios. Suas estampas foram varias vezes premiadas pelo Museu da Casa Brasileira, e os produtos da Arte Nativa passaram a ter um certo caráter institucional, sendo muitas vezes presenteados a autoridades e celebridades estrangeiras como um autentico pedaço do Brasil. Provocou uma mudança no segmento da decoração brasileira, mostrando o luxo e a sofisticação de nossa cultura nas paredes e nos sofás das salas bem decoradas. No desenho de estampa, a utilização de grafismos indígenas, como Kadiweus e  Karajas, dentre muitos, e desenhos florais e de frutas, como seu famoso tecido com estampa de bananas (...yes, nos temos bananas!..), inflamavam os têxteis para forração de mobiliários, echarpes de seda e xales de lã.

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Estampa “Bananas” sobre algodão para ANA por Íris di Ciommo e Circe Bernardes.

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Meu contato com a ANA aconteceu em 1996 através de Elisa Gomes, filha e parceira de Henriqueta, quando ali já se reuniam trabalhos de importantes designers e artistas plásticos que tinham como tema e compromisso o ambiente brasileiro. Para a Arte Nativa Aplicada eu criei varias estampas, sobre seda, lã, linho e algodão, em fio tinto e pintado, e a linguagem gráfica indígena brasileira foi definitivamente incorporada em meu trabalho. O conhecimento travado com outros artistas, como Ivone Rigobello, Joana Lira e Claudia Araújo, me rendeu experiências e amizades.

Não conheci pessoalmente Henriqueta Gomes, que infelizmente faleceu tragicamente em 1991, num desastre aéreo, quando regressava da Bahia para São Paulo junto com seu marido, o então senador Severo Gomes, e o casal Ulisses Guimarães. Com seu desaparecimento, a ANA passou a ser dirigida por Elisa Gomes, com brilho e talento, até que no inicio desse século, dando por finalizada essa grande aventura do design de estampa brasileiro, Elisa encerrou as atividades da Arte Nativa Aplicada, partindo para novos desafios.

 

Estampas “Mamão”, “Galinha d’Angola”, “Gibóia” e “Flor do Quiabo” em batik javanês sobre shantung de seda p/ ANA/ Celso Lima 1998.

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Cadeira em madeira de demolição com tecido estampa ANA.

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O trabalho de Henriqueta Gomes aguarda o seu resgate, que com certeza ocorrera no momento em que os designers brasileiros compreenderem a importância do regional nativo no desenvolvimento de uma estampa brasileira para o mundo. Que não se entenda com isso um desenho “folclórico” brasileiro, mas uma temática original inspirada e inspiradora, que possa se tornar de importância gráfica internacional sem deixar de ser nativa do Brasil. Já se observa há alguns anos algumas experiências bem sucedidas, embora intermitentes, nesse sentido. Enquanto isso, as peças e tecidos da Arte Nativa Aplicada continuam, perenes, enfeitando os ambientes do bem morar nesse nosso tropical pais.

Ver também post Índio Estampado 15/12/2008

DICA:

O moderno esta de volta a São Paulo na belíssima exposição do fotógrafo russo (então soviético) Aleksandr Ródtchenko (1891-1956), em bem montada retrospectiva. O que aconteceu na Rússia do inicio do século XX e após a revolução em 1917 até o inicio dos anos 30, o vanguardismo alucinado e maravilhoso do modernismo soviético, até hoje me impressiona, e a fotografia de Ródtchenko é uma amostra desse momento, quando a criação artística foi questionada em seu ideal estético romântico e colocada como instrumento de manifestação plena do pensamento do homem como animal político social, esse paradoxo do construtivismo russo. Naquele caldeirão efervescente da Rússia pré e pós revolucionaria, o trabalho de Ródtchenko faz na fotografia o que  Sergei Eisenstein realiza no cinema e Konstantin Melnikov na arquitetura, o mundo humano exposto em luz e sombras, devorado em preto e branco. E essa viagem na ilusão da forma e do espaço acontece na Pinacoteca do Estado, na Praça da Luz no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, até 01/05 (...uma atenção especial ao retrato que Rodtchenko faz de Vladimir Maiakovski, esse hércules atormentado da poesia russa!...)

 

...”nos demais, todo mundo sabe, o coração tem moradia certa, fica bem aqui no meio do peito, mas comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração...” / Vladimir Maiakovski (clicado por Rodtchenko).



Escrito por Celso Lima às 18h05
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