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Celso Lima Estamparia


"VKHUTEMAS": USINA DO MODERNO

Cartaz de Lazare Lissitski para a oficina de arquitetura do "Vkhutemas".

Talvez a maior aventura já experimentada na construção da modernidade aconteceu na esteira de um dos maiores eventos politicos do século XX, a Revolução Bolchevique de 1917, na Rússia, e foi a fundação de uma grande usina de criação e produção de arte e design: a escola e ateliês de ofícios "Vkhutemas", o laboratório aonde foi engendrado o futuro em formas e estruturas. Absolutamente desconhecida no Ocidente, o "Vkhutemas" começa a ser desvendado e redescoberto em nossos dias atuais, depois de quase um século de boicote promovido a arte e design da URSS, quando fomos privados dessa matriz de criações e soluções para um mundo de amanhã.

 

Sala de aula da oficina de pintura.

O "Vkhutemas", ou "Atelies Superiores Técnico-Artísticos Estatais", já que seu nome é um acronimo, foi fundado em 1920, em decreto oficial, por Anatoly Lunatcharsky (1875-1933), o primeiro "Comissário do Povo para Educação e Cultura" da Rússia soviética, a partir da fusão de 3 escolas estatais já existentes desde 1918: "Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou", "Atelies Nacionais de Ofícios e Artes Livres" e a mais antiga, a "Escola de Arte Industrial Stroganov". A função do "Vkhutemas", desde o seu início, foi o ensino de produção de arte e design, agora aliados pelo movimento construtivista, que servissem ao projeto de reconstrução urbana e industrial da Rússia revolucionária dos sovietes, assim como estabelecer os novos parâmetros de consumo adequados ao ideal igualitário socialista, nas propostas do marxismo-leninismo. Era um mundo novo que nascia, em ideais e formas, e o que se desenrolou ali foi na verdade o surgimento do design moderno, que até hoje reverbera pelo mundo, com os créditos todos para a "Bauhaus" alemã, equivocadamente. É inutil e irrelevante comparações entre as duas escolas, já que a produção do "Vkhutemas" é desproporcionalmente maior e superior em arrojo do que sua contemporânea alemã, que foi fortemente influenciada pela escola soviética.

Projetos de Krouthikov, Leonidov e Grichpoune.

Era aberta a todos, sem exigência de curriculos e sem imposição de pré-requisitos, apenas a condição de alfabetizado para o inscrito, e quando abriu suas portas eram 1467 inscritos, homens e mulheres, em sua maior parte oriundos das classes baixas, sendo 1/3 dos alunos do sexo feminino, algo só possivel em 1920 na Russia soviética, aonde ocorriam mudanças dramáticas na estrutura social do país, e a luta pelos direitos das mulheres alcançou um sucesso até hoje não igualado no Ocidente (a "Bauhaus" abre em 1919 com 150 matriculados, quase todos advindos da elite alemã, e com pouquissimas mulheres inscritas).

Sede do "Vkhutemas" em Moscou.

O ensino no "Vkhutemas" se caracterizava por um curso preparatório, o "Svoma", já existente tanto na "Stroganov" quanto nos "Atelies Nacionais", mas que foi ampliado: no "Vkhutemas", o curso possuia a duração de 2 anos. A função do curso preparatório era propiciar a todos os alunos uma formação ampla em todas as áreas. Ele era composto das seguintes disciplinas: "Superfícies", "Cores", "Propedêutica: Volume", "Propedêutica: Espaço" e "História da Arte". As oficinas regulares do "Vkhutemas" eram: "Arquitetura", "Projeto de Cores e Diplomação Propedêutica", "Trabalho em Metal", "Trabalho em Madeira e Metal", "Têxteis", "Cerâmica", "Artes Gráficas", "Pintura (Cavalete, Decorativa e Monumental)" e "Escultura".

 

Projeto de aluno com estudo de volume arquitetonico.

O aluno integrava as oficinas em projetos assim que encerrasse o curso preparatório, mas isso acontecia em etapas, e muitas vezes simultaneamente. Havia um compromisso da escola com a construção material do sonho socialista soviético, e ali, além de arte e design, projetos arquitetônicos de cidades inteiras foram realizados, em uma associação monumental de criação e produção.

 

Torre de transmissão fotografada por Alexander Rodtchenko/ padrão construtivista axonométrico Rodtchenko/Stepanova.

Foram muitos a ensinar no "Vkhutemas", com destaque para Alexander Rodtchenko, um dos grandes idealizadores da escola, e uma espécie de mentor, um artista múltiplo, fascinante, e grande teórico do design moderno, Alexei Babitchev, Victor Balikhine, Vassily Kandinsky (que comandou a oficina de arte, o "Inkhuk", que funcionava dentro da escola e que foi depois assimilado, em 1921, provocando sua saída), Alexander Chevtchenko, Anna Alexandrovna Exter, Alexei Filippov, Gustave Kloutsis (magnifico artista gráfico), Nicolas Ladovski, Anton Lavinski, o lendário Lazare Lissitski, o mega arquiteto Konstantin Melnikov, criador do mitico pavilhão soviético na Feira Mundial de Paris de 1925, entre outras obras-primas da arquitetura moderna, o espetacular artista gráfico Piotr Mitouritch, a cubista Nadedja Oudaltsova, a grande ceramista Oksane Pavlenko, o cenógrafo Isaac Rabinovitch, os titãs Vladimir Tatline e Alexandre Vesnine.

  Pavilhão da URSS na Feira de Paris 1925/ Melnikov.

Na oficina têxtil, de nosso particular interesse, imperavam a grande mestra Varvara Stepanova (1894-1958), que dirigiu a oficina até o fechamento em 1930, e a grande artista cubo-futurista Liubov Popova (1889-1924), ambas designers de pattern. Na colorimetria ensinava a designer Liudmila Maiakovskaya (1884-1969), oficina que incluia aerografia e tecnologia têxtil, e irmã do trágico Hércules da poesia russa e revolucionário futurista Vladimir Maiakovsky (um dos meus poetas favoritos, o grande "Volodia"). Também mestre na oficina têxtil, Oscar Grioune ensinava impressão industrial. A produção de design de pattern na oficina têxtil do "Vkhutemas" resultou dois estilos marcantes: os geométricos abstratos construtivistas e os temáticos.

 

Padrões temáticos.

Nos padrões geométricos abstratos construtivistas, a influencia era cubo-futurista, com o desenvolvimento de geometrias axonométricas em representação bidimensional, resultando em padrões ópticos com um trabalho de contrastes alternados de cores, produzindo efeitos de contração e expansão. Os temas geométricos representavam registros sensoriais de forças físicas, como impulsos elétricos e forças pressóricas, centrifugas e centripetas. No trabalho de Varvara Stepanova ressalto a maestria com que ela trabalha o "padrão frontal" e o "padrão de fundo", e junto com Liubov Popova, são as duas grandes designers de pattern do construtivismo russo.

Padrão construtivista geométrico abstrato/ Liubov Popova.

Os designers que produziram o belíssimo acervo das estampas temáticas, que trazem nelas todo o cotidiano produtivo agrícola e industrial, e também a cena urbana desse novo mundo, a república dos sovietes, são os responsáveis por algo inusitado: um "art-deco" soviético. A influencia do movimento "art-deco" é claro nos desenhos de padrões, retratando chaminés de fábricas, trens, ondas elétricas, ondas de rádio, a educação coletivizada das crianças, esportistas, usinas, máquinas agrícolas, como tratores e ceifadoras, tudo compondo um cenário fascinante, de um país que se forma a partir de uma ideologia igualitária, e se orgulha disso. Os temáticos surgem em uma celebração do primeiro "Plano Quinquenal", um planejamento econômico desenvolvido para um prazo de 5 anos envolvendo indústria e agricultura, e que foi a base da política econômica soviética até a Segunda Guerra. Eu sou particularmente apaixonado por essas estampas, de uma beleza incomparável. Destacam-se entre os designers temáticos do "Vkhutemas": Sergei Burylin, Marya Anufrieva, Oskar Grjun, Elizaveta Nikitina, Raisa Matveeva e F. Antonov (todos inicialmente alunos da escola).

 

Padrões temáticos.

Durante quase um século a detentora dos créditos pela criação do design moderno foi a escola alemã "Bauhaus", fundada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius. É importante contar que Gropius esteve em Moscou visitando os "Atelies Nacionais", na prática já o "Vkhutemas", em 1918, e foi inspirado pelo modelo soviético para a criação da escola alemã. Mas diferenças existem, já que a "Bauhaus" possuia, na figura de seu fundador, uma ligação com o movimento "Deustcher Werkbund", que ditava as regras do modernismo alemão desde o inicio do século. Mas tanto o curso introdutório da "Bauhaus", o "Vorkurs", era absolutamente o mesmo dos "Atelies Nacionais", quanto a estrutura de uma escola de oficinas e projetos era também inspirada pela soviética. No entanto, será Hannes Meyer, um dos diretores da "Bauhaus", admirador e amigo de Rodtchenko e grande entusiasta do "Vkhutemas", que aproximará as duas escolas. Com o passar dos anos e com o resgate, que começa a acontecer, da escola soviética "Vkhutemas" depois de quase um século de boicote cultural a URSS, será possivel estabelecer com segurança as colaborações (e houve muitas, com trocas de visitas e correspondências entre alunos e mestres de ambas) entre elas, assim como suas diferenças. Mas fica já evidente que a escola soviética exerceu forte influencia sobre a alemã, e não o contrário.

 

Cartazes de Gustave Kloutsis.

Mas a experiência foi avante demais, e o "Vkhutemas" foi fechado em 1930, por decreto de Josef Stalin, que via a escola como uma usina de criação, pensamento e reflexão do grande projeto socialista soviético, um tanto ameaçadora para seu plano centralizador de poder, cujo resultado conhecido por "stalinismo", foi um estado totalitário, terrorista e policial, o esfacelamento do sonho de um novo mundo, que durou apenas 10 anos. Mas se faz urgente seu resgate, para que possamos usufruir de seu acervo de idéias, soluções e propostas. Quem sabe então, sem maneirismos tecnológicos e performances inúteis, nos tornemos de fato "modernos".

Cadeira de Vladimir Tatline.



Escrito por Celso Lima às 15h14
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