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Celso Lima Estamparia


OBERKAMPF & UM "TOILE-DU-JOUY"

toile-du-Jouy

O ano era 1758, o bairro era o Marais, a cidade era Paris. Em um quartinho abafado pelos vapores da tinturaria do andar abaixo, um jovem de vinte anos experimenta químicas, óxidos e sulfatos, venenos do arsênio em misturas cloradas, açafrão do Marrocos impregnando o ambiente com seus perfumes, enquanto a laca chinesa é triturada com vontade pelas mãos do rapaz alemão, que trabalha em meio a uma barafunda de vidros coloridos, recipientes que contém a matéria prima tintureira: pigmentos, que se tornarão corantes, vetores da mágica das cores. Mágica? Não, química, e o colorista em ação chama-se Christophe-Philippe Oberkampf, um jovem teutônico que se tornará o primeiro grande criador e empresário do design têxtil na história moderna.

A tecelagem e estamparia "Oberkampf Cie" em Jouy-in-Josas.

Ele nasceu em Wiesenbach, na Alemanha, em 11 de junho de 1738, filho de um casal de tintureiros, as cores já em sua história desde o berço. Aos 17 anos rumou para a cidade de Mulhouse, na Alsácia, então uma das principais cidades tecelãs da França. Ali trabalhou como gravador de matrizes de impressão em madeira, grandes peças de block-printed, então o principal processo de estamparia nas oficinas francesas. Em 1758, em uma visita ao salão de artes no palácio do "Louvre" em Paris, Oberkampf conseguiu um trabalho como colorista em uma empresa que imprimia "orientais", como eram chamados os tecidos com temáticas indianas, as "chitas" francesas. A empresa "Toile Royale" era de propriedade de dois irmãos suíços, que ficam admirados com o trabalho de cores e desenhos de Oberkampf, assim como seu tino comercial, e lhe propõem sociedade em uma filial em Jouy-in-Josas, cidade tintureira próxima a Paris. Oberkampf recusa a sociedade, mas aceita um empréstimo em dinheiro para a abertura do negócio.

Balonismo em estampa "toile du Jouy".

Em 1759, Christophe-Philippe Oberkampf funda a "Royal Factory of Jouy", intitulada em inglês, pois já abria como fabricante e exportador, e iniciava ali um dos capitulos mais importantes na história do design moderno, em pleno século XVIII. Oberkampf era um amante das artes, autodidata, e admirador profundo dos autores do rococó francês, esse movimento tardio do barroco, muito popular na época. Seus pintores preferidos eram Antoine Watteau (1684-1721), então já um clássico, François Boucher (1703-1770), e principalmente seu contemporâneo Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). E Oberkampf tinha em mente uma estampa desenhada, inspirada nas cenas pastorais rococós, que fugissem aos temas orientais e exóticos asiáticos, tão repetitivos e já comuns, ele ansiava por uma estampa "européia". Os seus primeiros estampados foram produzidos com desenhos criados por ele mesmo, eram buquês florais e cenas urbanas, dos quais se possuem apenas recortes em antigas encadernações, mas o ponto forte de sua empresa eram tecidos tinturados e jacquards monocromáticos.

Padrão em "toile du Jouy" criado por Christophe-Philippe Oberkampf.

Um encontro histórico então acontece: Oberkampf conhece pessoalmente o pintor Fragonard em Paris, em 1768, e propõe a ele que desenhe padrões para sua estamparia. Inicialmente horrorizado com a idéia de criar para manufaturas, algo abaixo de sua posição como artista, Fragonard avalia sua situação financeira, péssima na época, e aceita o trabalho com uma condição: sem assinaturas. Com os desenhos belissimamente detalhados que Fragonard lhe apresenta, Oberkampf resolve imprimi-los em monocromias, numa valorização absoluta dos temas, e também uma novidade estilistica de baixo custo, testando um cilindro para impressão têxtil que ele próprio criara a partir dos cilindros em "intaglio" holandeses. Os irmãos suiços tinham razão, esse homem enxergava décadas adiante!

Máquina para impressão criada por Oberkampf.

Fragonard lhe entregou as artes, mas não entendia nada de estamparia, tampouco de rapport, mas Oberkampf aprendeu muito imprimindo "orientais", e é de sua autoria o rapport "alternado" das estampas rococós, que facilitavam a gravação dos cilindros, e em 1769 era lançado na França, pela marca "Oberkampf Cie." um tecido de cenas campestres, românticas, em monocromia azul sobre fundo branco, que o mundo hoje conhece por "Toile du Jouy". A grade de rapport alternado dessa famosa estampa até hoje leva o nome de seu autor: "grade Oberkampf". O branco do tecido chamava a atenção, e era obra de Claude Berthollet, quimico francês que trabalhava com Oberkampf e "redescobriu" o hipoclorito de sódio, que possibilitou a inovação da estampa sobre tecido branco, alvejado. O azul era obra de Euclide Orran, outro quimico, famoso por desmascarar o belo e fatal "verde de Paris", corante a base de arsenico que matou envenenada uma multidão de pessoas na Paris da metade do século XVIII. Ele criaria para Oberkamf tb um verde celebre, mistura de açafrão e indigo.

Padrão "fragonard" para o "toile du Jouy".

A estampa foi um sucesso e incendiou a França, já farta dos "toiles" de motivos exóticos. O "toile du Jouy" era elegante e divertido, e em 1774 Oberkampf lança sua versão em wallpaper, uma novidade inglesa que virava moda na França também. Inicialmente seu wallpaper era impresso em block-printed, já que a máquina de cilindros para tecidos não aceitava o peso do papel, mas em 1785 Oberkampf cria a primeira máquina para impressão de papel de parede, e o resto é história. Fragonard criou para Oberkampf quase uma centena de motivos, mas com a Revolução Francesa, em 1789, o tema rococó, muito ligado ao reinado louisiano, se tornou impopular. A solução inicial foi estampar florais apenas, sem as cenas oníricas e ociosas da corte pastoral, mas em 1809 uma nova colaboração tem inicio, agora com o pintor da revolução e de cenas militares Horace Vernet.

Padrão de Horace Vernet para o "toile du Jouy" com fundo geométrico.

Vernet não só aceita criar patterns para Oberkampf, agora célebre por toda a França, condecorado por Napoleão e reconhecido como o "maior industrial" da história do país, como tb assina, e o então famoso "toile du Jouy", que havia se tornado moda na Inglaterra também, ganha novos temas: as "estampas monumentais". Vernet também aplica "fundos" geometrizados nas estampas, e são cenas napoleonicas, monumentos, vistas urbanas de Paris, enfim, desenhos que traziam a "nova" França, agora uma potencia militar. Uma das ultimas parcerias de Oberkampf foi com Louis-Hippolyte Lebas, que se tornou o grande arquiteto do neoclássico francês, mas que desenhou padrões com temas arquitetônicos para o "toile du Jouy" quando jovem.

Padrão "tumba de Rousseau", da fase das "estampas monumentais".

Christophe-Philippe Oberkampf morreu em 04 de outubro de 1815, com sua empresa na falência, pois ele havia criado estilos e maquinários que influenciaram e provocaram grandes concorrentes, e uma má administração ao final da vida o levou a bancarrota. Seu filho Émile continuaria com os negócios, mas a empresa seria finalmente fechada em 1843. Mas Oberkampf e seu "toile du Jouy" fundaram a história do design moderno de pattern no ocidente, e durante o século XIX ele seria o grande patrono dos artistas da padronagem, além das contribuições tecnológicas que ele trouxe para a estamparia, em maquinários e soluções de colorimetria, pois criou mais de uma centena de cores para impressão. Eu sou absolutamente fascinado por seu trabalho, e até hoje sua estampa é um verdadeiro hit mundial, chic, elegante e divertida, mais de dois séculos depois.

Padrão com tema da estamparia de Jouy-in-Josas para o "toile du Jouy".



Escrito por Celso Lima às 16h39
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