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Celso Lima Estamparia


UMA CHITA BRASILEIRA?

Chitão floral.

Essa é a história de um híbrido cultural, como muitos que existem pelo mundo, frutos do intercâmbio de culturas, muitas vezes pacífico, outras nem tanto. Muito populares e hoje consideradas "cults", as estampas florais "large" em fundos de cores primárias, muito extravagantes, recebem no Brasil o nome de "chitas" ou "chitões", graças as suas origens. A versão oficial conta que nossa chita descende estilisticamente das francesas e portuguesas, com destaque para as chitas embarcadas em Alcobaça, Portugal. De fato, a partir da segunda metade do século XIX, as chitas, tecidos estampados com motivos florais de influência oriental, corruptelas européias das originais "chitras" da Índia, os "palampores", ou "pintados" como nomearam os portugueses, ou "chintz" nas versões inglesas, e "toile peinte" na França, passam a ser produzidas no Brasil também, principalmente em tecelagens de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, que priorizam as estampas florais com adornos neoclássicos que caracterizavam as chitas européias nesse momento, e os "tabaqueiros" xadrezes passam a ser paulistas e cariocas.

Palampore indiano / século XVIII.

Os padrões florais de rosas, lírios, hibiscos e papoulas com borders neoclássicos são os temas até o final oitocentista, quando as estampas passam a ser construidas em buquês, uma variação de estilo adotado pelos portugueses influenciados pelos provençais franceses, já que Paris e Viena ditam a moda nesse "fin-de-siécle". Mas e a nossa chita com suas flores enormes e exóticas, suas cores primárias, que se diferenciam tanto das delicadas estampas européias? Pois é, existe uma história que nunca é contada, porque não é pesquisada e conhecida, e que mudou o desenho da chita produzida no Brasil: a chegada aos nossos portos, a partir de 1914, dos estampados "royal dutch wax", ou "wax-print", produzidos em Java e na Holanda e comercializados por holandeses e ingleses na costa ocidental africana.

Chitas portuguesas / século XIX.

Eles foram introduzidos inicialmente na "Costa Dourada", atual Gana, pelos holandeses, que em 1846 haviam fundado a "Vlisco", empresa que produzia um batik semi-fabril em "Batávia", hoje Jakarta, capital da Indonésia, então colônia holandesa, e em Amsterdam e Rotterdam. A primeira tentativa de comercializa-los foi na própria colônia, nas ilhas de Java e Sumatra, mas a rejeição foi absoluta. Para os habitantes das ilhas, o batik era uma arte sagrada, e não poderia ser corrompido daquela forma, um processo que alterava toda a sua meticulosa execução artistica e violava seus signos religiosos e culturais. Daí a idéia de desova-los na sua ex-colônia "Costa Dourada", que os holandeses haviam vendido para a Inglaterra. Inicialmente estampados em azuis, amarelos e vermelhos, suas estampas florais e mitológicas javanesas exerceram forte atração sobre as populações locais, além de serem muito baratos.

"Wax-print" / "Vlisco"

A introdução do "wax-print" na África gerou um dos mais dramáticos estigmas das politicas de aculturação das colônias, que perdura até hoje como uma fratura das identidades africanas, quando se estabelece como um "simbolo" do continente, sendo o que sempre foi: uma criação e produto dos holandeses, uma fantasia do que deveria ser a estampa africana, com motivos europeus, asiáticos e alguns elementos pinçados do "folk" africano, mas que provocou a destruição e declinio dos importantes acervos de arte têxtil originais das culturas africanas, em suas ricas diversidades. Mas esse assunto é para outro post. Seu sucesso fez expandir o comércio da costa para o interior do continente, hoje onipresente em toda a África."

Chita estampada no Brasil pela "Cedro & Cachoeira" / Minas Gerais / Século XIX.

Durante a Primeira Guerra Mundial, com o enfraquecimento dos mercados europeus, os holandeses resolveram incrementar a venda do "wax-print", então uma importante fonte de lucros, e lançaram os olhos para outra região que concentrava imensa população negra, de origem africana: o Brasil, com destaque para as grandes cidades da costa nordestina. E por que apenas as populações negras? Eles acreditavam que o "wax-print", exótico e multicolorido, só poderia interessar a povos "inferiores" que não cultivassem padrões europeus de elegância e bom gosto, expressos nas cores sóbrias e nas clássicas estampas dos têxteis que vestiam e forravam a Europa. Os preconceitos classista e racista eram ingredientes que moviam os interesses pecuniários dos holandeses.

Chitão floral em recortes.

Então, durante a guerra, holandeses e ingleses passam a exportar seus "wax-prints" para o Brasil e tb para Portugal, país neutro que já comercializava o tecido via Angola. Aqui os florais extravagantes sobre algodão chegam principalmente na costa nordeste, aportando em Recife e Salvador, com populações negras maiores, e na concepção colonialista dos europeus, mais receptivos ao "exótico". Foi um sucesso, o que levou os comerciantes locais a temerem a concorrência, dado os preços ínfimos com que os "wax-print" eram vendidos. Nessa época, estampar era caro, ainda mais os motivos das chitas européias, que demandavam de 12 a 24 matrizes de impressão. O "wax-print" levava no máximo 4 impressões, graças ao uso da cera como reserva, daí seu baixo custo.

Chita com 22 matrizes de impressão / Brasil / século XX.

Foi o sucesso do tecido holandes que levou uma tecelagem, a "Pernambuco Algodoeira", a criar em 1916, pelas mãos de estudantes de arte recifenses, os florais em "recortes" aplicados a fundo plano. Eram as flores das chitas recortadas e aplicadas sobre fundos lisos em cores saturadas, com no máximo 5 matrizes sobre morim de algodão, resultando em um tecido extremamente barato, e muito, mas muito atraente. A recriação das chitas traziam grandes buquês de lirios, papoulas e rosas, entre outras flores das originais estampas européias, sem os borders neoclássicos ornamentais, em fundos de cores chapadas sobre algodão de má qualidade. Foi um êxito estrondoso, que destruiu a concorrência holandesa.

Chitão floral com papoulas.

Assim nascia nosso chitão florido, único em suas características. Vestia apenas as populações negras e pobres do nordeste brasileiro, já que seriam comercializados para a região sul e sudeste apenas no inicio dos anos 60. Quando se iniciou a produção de tecidos sintéticos e mistos no Brasil, no final dos anos 50, uma nova oferta de estampas e têxteis se apresentou para as camadas mais empobrecidas da população, e a chita em morim vagabundo começou a ser abandonada, então considerada um estigma da pobreza. Foi no final dos anos 70, já relegada a ensacar farinha e pão, que começou a despertar a atenção como peça "folk" nas elites brasileiras, sendo introduzida em ambientes requintados propostos pelas revistas de decoração. Hoje indica modernidade, autenticidade e brasilidade, mas nesse seu epílogo fica dificil ocultar o esnobismo de classe entre suas belas flores.

A chita decora o "chic".

Mas é brasileira? Estilisticamente é uma criação nossa, mas suas flores continuam a reverberar suas origens européias. Os chiteiros anônimos que desenharam os motivos, um acervo muito pequeno de estampas, sempre se inspiraram nas flores estrangeiras presentes nas chitas francesas e portuguesas. Nos ultimos anos venho realizando oficinas para criação de florais, novas "chitas", autenticamente brasileiras, com nossas quaresmeiras, xixás, urucum, as flores das goiabeiras e ipês, e fico surpreso com a ignorância dos alunos sobre nossa flora. É preciso reiniciar o processo educativo no Brasil, refundar nossas escolas e resgatar nossos jovens da mediocridade e desconhecimento em que estão mergulhados. Quem sabe um dia teremos um acervo de chitas brasileiras, autênticas em nossas flores, explodindo em cores.

Estampa "Maracujás" / Lucia Bissoto / 2014.



Escrito por Celso Lima às 13h02
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